domingo, fevereiro 25, 2007

NEGRO SEMPRE FOI SINÔNIMO DE ESCRAVO?

Organização do texto: Professor Morche Ricardo Almeida

É uma pergunta séria. Infelizmente aqui no Brasil a ignorância reina no âmbito racial, cultural como também em outras áreas.
O negro na América é descendente de escravo sim! Se não fosse a escravidão provavelmente não haveria negros na América ou existiriam pouquíssimos, uma vez que os africanos vieram para América seqüestrados e não por vontade própria. Se fosse por vontade própria as relações sociais seriam diferente.
O negro deve procurar conhecer suas raízes. Sem saber seu passado ele corre o risco de ser eternamente sinônimo de escravo. Todos os negros têm que encarar essa questão de ex-escravo com seriedade. Saber que o alicerce da sociedade brasileira foram seus antepassados. Os descendentes dos brancos escravizadores e seqüestradores devem muito aos descendentes de suas vítimas.
A partir do momento que o negro se conhecer, ou seja, souber a importância que seus antepassados tiveram para construção do Brasil colônia e mesmo como país independente passará a ocupar seu verdadeiro espaço na sociedade brasileira.
Se entendermos que tudo que se refere à palavra negro é no sentido denotativo da questão, veremos que não está ligado a nenhum grupo étnico da áfrica, pois quando a palavra negro é referente aos africanos esta palavra está no sentido conotativo da questão. Hoje sabe-se que todos os povos e as grandes civilizações africanas sempre tiveram nomes.
O povo negro tem atribuído ao termo um novo sentido. A partir do debate sobre a importância do africano na América, que vem ocorrendo em todo país através dos movimentos promovidos pelos afros-descendentes. Percebe-se que a palavra negro é sinônimo de força, de garra e construção. Tem-se imputado positividade à palavra e surge assim sentimento verdadeiro de pertencer à negritude.
Recusa-se o termo mulata/o por ser pejorativo (“mula” do Latim mulla. fêmea do mu ou macho. pessoa ruim e sonsa). Recusa-se o termo preto por se relacionar à coisa, e reduzi-lo à cor. Enquanto buscamos uma identidade racial para além da cor da pele. Quanto ao termo negro, do Latim nigru, que significa de cor escura; a cor negra; homem de raça negra; aquele que trabalha muito. Seria o mais adequado para definir o africano e seus descendentes na América.
No Brasil o termo negro remete a uma identidade racial e étnica, algo como se pudéssemos somar os atributos da raça/cor com os atributos étnicos/culturais. desta forma, defende-se o uso e fortalecimento do termo negro no contexto brasileiro, pois no debate racial, deve-se lembrar que cada contexto e cada época é caracterizado por armadilhas diferentes e, portanto, as estratégias também o são.
o trabalho do negro no Brasil colônia pode estar relacionado à escravidão, mas de modo algum se percebe que negro é sinônimo de escravo, pois é fato na história que outras etnias também foram escravizadas, o que deve questionar é o mal costume de sempre relacionarmos o trabalho escravo à figura do negro como se só os negros um dia tenham sido escravos.
Ter a pele negra, no Brasil, já remete imediatamente à escravidão. Nos primeiros anos de colônia os índios também eram chamados negros, negros da terra, a denominação era devido à cor da pele, escura. A literatura jesuítica está repleta de referências desse tipo. a documentação de São Paulo do século XVI cita como crime o ataque às negras, mas na verdade sabe-se que eram índias, porque os bandeirantes tinham tantos índios escravos que pouco praticaram a escravidão africana, portanto negro não é sinônimo de escravidão.
Sendo o Brasil escravocrata por muitos séculos, infelizmente negro foi sinônimo de escravos, o problema é que mais de um século após a lei áurea, o fim “oficial” da escravidão, o Brasil continua associando o negro à escravidão e ao que é negativo.
Além de contextualizar e situar o tempo dos fatos históricos, também se faz imperativo explicitar quem escreveu, fez tal história, e principalmente tornar explicito as relações de força, interesses, valores etc. afinal a história não é e nunca será uma ciência livre da presença das crenças, visões de mundo e interesses dos grupos que a escrevem e a legitimam.
Deve-se questionar muito quando se fala em África e descendentes de africanos negros, pois não se deve esquecer que o continente africano está dividido em África do Norte (branca) e subsaariana (negra), até porque o que se ensina no Brasil está enraizado na cultura européia. Estamos tão mergulhados no mundo da brancura que, muitas vezes nos surpreendemos com a nossa lógica binária e excludente da ciência ocidental e cartesiana. ou seja, para que o eu esteja correto o outro tem que estar errado, essa lógica binária é a mesma lógica que aniquila o outro, o considerado diferente do eu hegemônico. Não se deve reduzir a sabedoria à formação acadêmica. Este fato é mais que o suficiente para não aceitar sem questionamento e não apenas reproduzir o que se fala sem ser amplamente debatido e investigado.
Faz-se necessário o “grito” dos afros-descendentes. Buscar em suas raízes sua verdadeira história nada como a sabedoria presente na ancestralidade para mediar um importante debate. Uma das possibilidades sugerida para o conhecimento da cultura africana é visitar um terreiro de candomblé e mergulhar na sua complexidade. Pois na academia estamos mais propensos a boiar na superfície da vida. O Brasil para conhecer melhor a sua história, deve jogar mais capoeira e menos tênis.
"(...) a palavra negro, aos ouvidos dos brasileiros, e mesmo a palavra mulato, ainda soam, em numerosos casos, como equivalente de escravo: uma sobrevivência verbal daquele passado, não tão remoto, quando se dizia que um proprietário de escravos no Brasil possuía, não tantos escravos, mas tantos negros ou tantos pretos ou tantos cabras: mesmo quando os escravos eram de uma cor mais clara do que a dos seus proprietários?" (Gilberto Freyre. o fator racial na política contemporânea. ciência & trópico. recife, v.10, n.1, p.19-36, 1982.)

Existe uma certa desconfiança em relação à utilização de categorias da biologia para a análise do social, e principalmente da história, e mais ainda se o discurso iluminista estiver presente. Não se pode rotular os nagôs, jejes, fon entre tantos outros grupos étnicos possuidores de processos históricos diferentes, uma cosmogonia singular e acima de tudo uma identidade própria, como negros. A única coisa que eles têm em comum é a cor da pele e isso se nota no Brasil no cotidiano da escravidão. Várias revoltas, quilombos e reivindicações se fazem em torno de algumas etnias perceptíveis, e não de negros (levando em consideração o caráter generalizador do termo), etnias essas que muitas vezes através da experiência (conceito de E. P. Thompson) se uniam em torno de um causa comum, a libertação. E no processo da escravidão no Brasil, não se escravizaram negros e sim africanos.
O termo negro é discutido aqui pela história que ele carrega. muitos negros militantes passaram a usá-lo como afirmação de sua raça. Na década de 80 existia a frase "preto é cor, negro é raça". hoje muitos jovens, como o pessoal do rap, usa preto tranqüilamente. mas na década de 80 era uma ofensa séria. Quando nos referimos a raças é bom lembrar que as raça são, amarela, preta, vermelha, branca. a definição de raça não é ligada à cor exatamente. o tipo branco não é da cor branco, mas bege ou salmão, o tipo preto não é da cor preto, mas sim marrom; o tipo amarelo não é amarelo, mas sim igual ao tipo branco, o tipo vermelho, se não usar urucum, também fica meio bege pra bronze. as cores definidoras das raças são simbólicas e englobam culturas e modo de viver também. Portanto uma raça negra, somente foi legitimada oriundo da escravidão. da mesma forma que o índio era chamado de negro antes. Seja da terra ou do céu, significava para aquele que o chamava assim, um ser inferior que deve ser subjugado, tanto que lhe atribuiu todo que mais repugnante figurativamente, logo negro não é sinônimo de escravidão.
Existe a necessidade de reescrever a história do Brasil e desta vez não de uma forma mítica como foi até hoje.
Negro tem significado de liberdade, ser livre em tudo e em qualquer parte desse mundo injusto e cego.


Este texto foi organizado a partir do debate no fórum da comunidade História da África do Orkut cujo tema é título do mesmo. Os membros que participaram com suas opiniões foram: TOPSONSKY; Luis; Abdoul; Gustavo; Denys Amorim; Nadson; Rosemeire; Juarez; Gerson; Segisvaldo; Antonio; Tarantini; Fênix; Leandro e Mulato Sim.

Agradeço a todos por suas idéias.

Um comentário:

biraprestes disse...

Gostei muito dos textos do seu blog!! Parabéns!! Vou acompanhar sempre!!
Ubirajara Prestes
Professor de História