sábado, dezembro 13, 2025

QUANTOS MOVIMENTOS TEM UMA CIDADE PEQUENA?



            Para quem olha de longe, uma cidade pequena parece imóvel, como uma fotografia antiga esquecida na parede da sala. Mas quem viveu nela sabe: o movimento não está apenas nas ruas cheias, e sim nos encontros, nos sons, nos rituais repetidos que dão sentido aos dias. Santana do Ipanema, no sertão alagoano dos anos 1960 e 1970, nunca esteve parada. Ela pulsava — do seu jeito.

            Para uma criança daquele tempo, o mundo era grande mesmo cabendo em poucas quadras. O sino da igreja marcava as horas, o rádio atravessava as paredes das casas, a feira mudava o ritmo das manhãs, e o Cine Alvorada acendia sonhos quando a noite chegava. No começo, eram as películas americanas, imagens distantes de outros mundos. Mas, nos anos 1970, algo mudou. O cinema deixou de ser apenas tela e virou palco.

            Quando seu Tibúrcio passou adiante o Cine Alvorada e Paulo Ferreira abriu as portas para os programas de auditório de domingo, Santana ganhou um novo coração cultural. A cidade inteira parecia caber ali dentro. Crianças com os olhos atentos, adolescentes cheios de expectativas, adultos orgulhosos de ver os seus brilharem sob as luzes do palco. Cantores amadores, bandas formadas por jovens santanenses, desafios improvisados, humoristas, dançarinas, mágicos — tudo tinha espaço. Tudo era aplauso.

            Para uma criança sentada nas primeiras fileiras, aquele não era apenas um espetáculo. Era uma escola invisível. Aprendia-se a ouvir, a respeitar quem estava no palco, a perder e ganhar em público, a rir de si mesmo, a admirar o talento do outro. Aprendia-se que a cidade era feita de gente, e que cada pessoa tinha algo a oferecer. As homenagens do Dia das Mães, as gincanas, as brincadeiras coletivas ensinavam afeto, pertencimento e gratidão — lições que nenhum livro sozinho conseguiria ensinar.

            E quando artistas de alcance nacional, como Antônio Marcos e Cláudia Barroso, subiam ao palco do Cine Alvorada, Santana sentia que o mundo também passava por ali. A cultura não era coisa distante das capitais; ela estava presente, viva, acessível. Entre o rádio que já fazia parte do cotidiano, a televisão que chegava devagar e as festas tradicionais de padroeira, os programas de auditório completavam o ciclo da alegria coletiva.

            A cultura, naquele tempo, não era luxo. Era necessidade. Era o fio que ligava gerações, que dava sentido às lembranças e moldava o caráter das crianças que cresciam vendo, ouvindo e participando. Uma cidade pequena tem muitos movimentos — alguns quase invisíveis para quem passa rápido. Mas eles ficam marcados para sempre em quem viveu. Santana do Ipanema se movia assim: em aplausos, em risos, em músicas desafinadas e cheias de verdade. E cada criança presente levava um pouco disso para a vida inteira.


 

sexta-feira, dezembro 12, 2025

O CALEIDOSCÓPIO DE MISAEL


            O mundo infantil no início da segunda metade do século XX, em Santana do Ipanema, era um universo de invenções, de risos soltos e de descobertas que nasciam das mãos simples e do olhar atento dos mais velhos. As crianças aprendiam muito antes de saber ler, guiadas por tios, avós e bisavôs que carregavam no peito histórias vividas e sabedoria acumulada.

            Foi nesse tempo que Misael, o bisavô, entrou para a nossa memória como um guardião de encantos. Já era idoso, os cabelos ralos e brancos, mas o brilho nos olhos lembrava um menino que tinha atravessado dois séculos. Misael nascera ainda no finalzinho do Império, quando o Brasil dava seus últimos passos antes de se tornar república. Cresceu vendo o país mudar, tornou-se adolescente já republicano, e adulto quando o novo século nascia cheio de promessas. Casou com Júlia e construiu com ela uma família de quatro filhas, das quais três se criaram — entre elas, Iluminata, a caçula, que mais tarde seria mãe de Maria, minha mãe.

            O sangue de Misael carregava também a força dos comerciantes sertanejos. Ele era de uma família envolvida no comércio e na distribuição do sal que chegava de Mossoró. O sal fazia um longo caminho: partia das salinas, descia para o porto de Areia Branca e, de lá, seguia pelos vapores até Penedo. Subia o Rio São Francisco até Pão de Açúcar, onde tropas de burros marcavam o passo firme rumo ao sertão. Era assim que o sal chegava a Santana do Ipanema, espalhando-se depois por todas as feiras e povoados da região.

            Talvez fosse essa vivência — a de ver o mundo em movimento, passando de um lugar a outro, mudando de forma como as águas do rio — que fazia de Misael um homem tão sensível às pequenas maravilhas. Foi ele quem, certo Natal, colocou nas mãos de cada bisneto um presente que parecia nascido da própria magia: um caleidoscópio feito por ele, com tubos simples, pedacinhos de vidro colorido, fragmentos brilhantes e uma engenhoca de espelhos cuidadosamente montada. Não era comprado. Era construído. Era pensado para nós.

            Quando aproximávamos o olho do pequeno furo e girávamos o tubo, o mundo mudava. As cores se juntavam e se separavam como se dançassem. Estrelas apareciam do nada, flores se formavam e se desfaziam, desenhos que não existiam em lugar nenhum se revelavam só para nós. Cada giro era uma surpresa, cada volta um universo inteiro. E era impossível não pensar que aquele presente dizia mais sobre Misael do que qualquer palavra: ele queria que víssemos além, que enxergássemos beleza onde o cotidiano escondia, que descobríssemos que o mundo — mesmo o mundo simples de Santana do Ipanema — podia ser encantado se tivéssemos o olhar certo.

            O caleidoscópio não era apenas um brinquedo. Era um convite. Um convite para olhar a vida com cores, com movimento, com surpresa. Um convite para ver o mundo como Misael sempre viu: grande, transformável e cheio de possibilidades.

            Até hoje, quando lembro daquele pequeno tubo nas mãos de criança, sinto que vejo de novo o brilho no olhar do bisavô — o mesmo brilho que ele colocou dentro de cada caleidoscópio. Um brilho que continua vivo, girando dentro da nossa memória, como as formas coloridas que nunca se repetiam. 

quinta-feira, dezembro 11, 2025

A NOITE EM QUE AS HISTÓRIAS CRIAVAM CRIANÇAS



             Em Santana do Ipanema, quando o sol se escondia atrás das serras e deixava o céu rosado como algodão de açúcar, as ruas iam ficando mansas. Não havia televisão, não havia celular, e sequer um rádio fazia barulho em todas as casas. Mas ninguém sentia falta. O tempo parecia mais cheio, como se cada minuto tivesse uma largura maior.

            As crianças corriam de um lado ao outro, suadas, rindo, chutando bola ou apostando corrida até o fim da rua. Os adultos vinham voltando do trabalho — as mulheres do comércio, das repartições, das escolas; os homens dos serviços pesados, do campo, das oficinas. Todos carregando o cansaço nos ombros, mas um cansaço bom, daqueles que se lava na conversa. E era ali, nas calçadas iluminadas pelo candeeiro ou pelo generoso brilho da lua cheia, que o verdadeiro espetáculo começava.

O Círculo das Histórias

As crianças se sentavam primeiro. Sempre elas. Como se tivessem sede de ouvir, os olhos brilhando, as pernas inquietas. Os adultos vinham depois, arrastando bancos, cadeiras de balanço, tamboretes. E então formava-se aquele círculo sagrado — o palco onde a imaginação tinha licença de dançar.

            Dona Alzira era a primeira a falar. Sempre foi. Tinha uma voz grave e contava sobre os espíritos que apareciam para revelar onde estava enterrada a botija — mas só revelavam para quem tinha o coração limpo. As crianças tremiam, mas não desgrudavam da história. Seu Raimundo, por sua vez, lembrava dos homens que viravam animais ao bater da meia-noite. Um vulto que corria como quem foge ou persegue — ninguém sabia. As crianças se entreolhavam e ficavam mais juntinhas. E havia, claro, o terrível papa-figo, que surgia sempre quando alguma criança enrolava demais para entrar em casa. Bastava a mãe dizer: “Olha que o papa-figo anda por aí…” e pronto — era como se a noite toda prendesse a respiração.

Mas nem tudo era medo.

            Havia também as histórias de amor antigo, contos cheios de humor e sabedoria, causos que falavam de amizade, de respeito, de conviver em grupo sem pisar no outro. Histórias onde cada erro era um ensinamento e cada acerto, um brilho que mostrava o caminho certo.

Aprender Crescendo Juntos

            As crianças, sem perceber, aprendiam mais ali do que em qualquer caderno da escola.

            Aprendiam a esperar sua vez de falar.

            Aprendiam a escutar com atenção.

            Aprendiam que a vida é cheia de mistérios, mas também de belezas simples. E, principalmente, aprendiam que comunidade é estar junto — com medo, com riso, com dúvida, com sonho. E quando a noite chegava ao fim, quando a lua já estava alta e o vento frio batia no rosto, cada criança voltava para casa sentindo-se maior. Mais esperta. Mais parte do mundo. Porque naquela época, antes de telas e botões, quem educava também era a palavra — viva, quente, encantada. E era ali, nas calçadas de Santana, que as crianças aprendiam a ser gente.

quarta-feira, dezembro 10, 2025

A DOÇURA QUE MANTINHA A CASA DE PÉ

 

            




           Nos anos 1970, Santana do Ipanema era um vai-e-vem danado! Gente chegando de São Paulo com sotaque arrastado, gente partindo pra Recife levando saudade e esperança na mala. O sertão parecia respirar aquele movimento — uma troca invisível de sonhos e histórias.

            No beco de seu Felisdoro, onde as vozes ecoavam entre paredes estreitas, vivia Dona Zefinha, uma mulher miúda, forte como raiz de mandacaru, e mãe de três. O marido? Tinha ido embora “atrás de sorte”, como se dizia. Nunca mais voltou. Mas Zefinha ficou — ficou porque sabia que o chão de Santana era duro, mas era seu. Com coragem, ela transformou a pobreza numa oficina de possibilidades. Certo dia, enquanto olhava para a panela de alumínio surrada, pensou: “Se açúcar der alegria pra menino, dá sustento pra gente grande também.”

            E assim nasceu o império doce de Zefinha.

            Ela colocava água e açúcar na vasilha e ficava ali, mexendo com firmeza, observando o ponto certo — aquele instante exato em que o caldo engrossava e já cheirava a infância. Em um tabuleiro furado, ela encaixava cones de papel que fazia à mão. Despejava o mel dourado e, com um movimento rápido, enfiava o palito. Estava criado o pirulito de tabuleiro. Simples. Modesto. E poderoso. Quem saía vendendo era Luizinho, o mais velho, correndo os becos, abrindo caminho pela cidade com o grito que virou trilha sonora de muitas tardes:

— “Olhe o pirulito! Enrolado num papel e enfiado num palito!”

            Era bonito de ver o menino, magro, descalço, mas com o peito cheio de orgulho. Cada centavo voltava para casa e virava feijão, caderno, sabão, um par de chinelos para o mais novo. Com o tempo — ah, com o tempo a criatividade de Zefinha floresceu como mandacaru depois da chuva. Ela comprou forminhas de metal trazidas por um vizinho que voltara de São Paulo. E os pirulitos ganharam forma: chupeta, coração, pássaro, estrelinha. Sua arte virou atração. Criança já reconhecia de longe o brilho do açúcar colorido. Zefinha virou referência. Não tinha estudo, não tinha marido, mas tinha coragem, mãos ligeiras e uma fé que nunca lhe cabia no peito.

            À noite, quando a cidade já estava calma, ela se sentava na porta, abanando o rosto suado, enquanto os meninos brincavam. Olhava pro céu estrelado e pensava, silenciosa: “Criei um mundo com o que tinha.”

            E era verdade.

            No sertão da segunda metade do século XX, onde a vida teimava em ser dura, aquelas mulheres — Zefinha, Maria de Chico, Rita de Jaime, Tereza de João Pequeno — sustentavam a comunidade com invenção, suor e uma resistência bonita de se ver. Não eram lembradas nos jornais, não discursavam em palanques, mas seguravam casas inteiras nas costas. Criaram filhos, criaram caminhos e criaram futuro num lugar onde muitos só viam seca e falta.

            Zefinha nunca foi rica. Mas deixou herança: a certeza de que, quando a vida apertava, ela sempre arranjava um jeito de adoçar o mundo. Essa era a força da mulher sertaneja: lutadora, criativa, incansável — capaz de transformar açúcar em sobrevivência e amor em alimento.

JULHO EM SANTANA: QUANDO A JUVENTUDE VIRAVA FESTA

             Santana do Ipanema sempre foi mais que um ponto no mapa. Foi — e ainda é — um lugar de pertencimento, um chão que cria raízes i...