sábado, dezembro 27, 2025

JULHO EM SANTANA: QUANDO A JUVENTUDE VIRAVA FESTA



            Santana do Ipanema sempre foi mais que um ponto no mapa. Foi — e ainda é — um lugar de pertencimento, um chão que cria raízes invisíveis nos pés de quem nasce ali e também nos que chegam por afeto. Quem parte, parte com o corpo, mas deixa o coração ancorado na cidade, esperando o mês de julho para bater mais forte.

            Quando a festa de Senhora Santana se aproximava, o tempo parecia mudar de ritmo. Antes mesmo do soar das primeiras novenas, os ônibus já rasgavam a estrada trazendo de volta filhos ausentes, jovens que haviam ido estudar em Maceió, Recife, São Paulo, e retornavam com sotaques levemente misturados e histórias novas nos bolsos. Vinham cheios de saudade, trazendo nos olhos o brilho de quem nunca deixou de ser santanense. As casas se preparavam, as redes eram armadas, os colchões estendidos, e a cidade se enfeitava não só de bandeirolas, mas de reencontros.

            Nos anos 70, o coração desses encontros pulsava forte na Toca do Pato, em frente à praça do Ginásio Santana, sob a sombra da igrejinha de Nossa Senhora da Assunção. Ali, os jovens se reuniam para contar o mundo que tinham visto fora, mas também para reafirmar o amor pelo mundo que os havia criado. Riam alto, gesticulavam, planejavam o futuro e, sem perceber, ensinavam às crianças que observavam de longe que crescer também podia ser bonito.

            Foi para essa juventude que nasceu a Festa da Juventude. No sábado à noite, o baile era mais que um evento: era um rito. A sociedade inteira se fazia presente, e os olhares se voltavam para o momento solene e encantado da escolha da Rainha da Juventude. A jovem coroada não era apenas a mais bela; era o símbolo de uma geração cheia de sonhos, que acreditava no amanhã sem abandonar suas origens.

            O domingo amanhecia inquieto, como se a cidade acordasse mais cedo. As crianças, vindas de todas as ruas e bairros, seguiam em fila para o bairro do Monumento. Ali, a praça do ginásio se transformava em palco e escola. As competições ensinavam mais que agilidade: ensinavam cooperação, alegria, respeito. Havia a corrida de carros, onde duplas enfrentavam provas curiosas — o ovo equilibrado na colher, a linha passada pela agulha com mãos trêmulas, a maçã mordida no ar, os balões estourados na rampa improvisada. O povo ria, torcia, aplaudia. Não importava quem ganhava; importava participar.

            Depois vinham as bicicletas, o futebol, e então, a atração mais esperada: a corrida de jegues. Os animais chegavam enfeitados, batizados com nomes engraçados, trazendo consigo a simplicidade e o riso fácil do sertão. O locutor narrava cada passo pelo carro de som, e entre tombos, empacadas e relinchos, a multidão vibrava. As crianças, de olhos arregalados, aprendiam ali que a alegria podia ser simples, coletiva e verdadeira.

            Hoje, quem viveu aquela época guarda essas lembranças como quem guarda um relicário. Os jovens dos anos 70 aprenderam a valorizar o retorno, o abraço, a cidade-mãe. As crianças, por sua vez, aprenderam a admirar, a sonhar e a entender que Santana do Ipanema não era apenas o lugar onde se morava, mas o lugar onde se aprendia a ser gente. E assim, entre festas, risos e saudades, Santana seguia — e segue — ensinando gerações inteiras que certas cidades não se deixam ir, porque moram para sempre dentro da gente.


 

sexta-feira, dezembro 26, 2025

QUANDO O CÉU VIRAVA FESTA E A TERRA PEDIA CUIDADO




           

            As noites de festa em Santana do Ipanema tinham cheiro de pólvora e promessa. Antes mesmo do primeiro foguete riscar o céu, já havia um silêncio diferente no ar, como se a cidade inteira prendesse a respiração. As famílias saíam de casa devagar, crianças de mãos dadas com os pais, olhos arregalados de expectativa. Era assim no Natal, na virada do ano, em São João — quando os fogos pareciam mais ousados —, em São Pedro, São Cristóvão e, sobretudo, nas festas de Senhora Santana, quando o céu se tornava altar.

            Para as crianças, o encanto começava no assobio. Aquele som fino, subindo rápido, puxando o olhar para cima, anunciava o instante mágico da explosão. O foguete, engenhoca simples de bambu e fogo, parecia vivo: nascia na mão do fogueteiro, ganhava impulso, sumia na altura e, depois de um breve suspense, se abria em luz. Quando demorava um pouco mais, vinha o grito coletivo: “Falhou!”. E logo o riso, porque quase sempre não falhava — apenas nos ensinava a esperar.

            Havia os que estouravam como trovão seco, fazendo o peito vibrar, e os que preferiam a delicadeza: estrelas coloridas, pétalas de luz caindo devagar sobre a cidade. Mas nada se comparava às noites de novena de Senhora Santana. Zuza, o fogueteiro famoso, preparava sua arte com solenidade. Da porta da matriz até o meio da rua, um fio de pólvora estendido como caminho de fogo. No centro, um grande caibro guardava o segredo. Ao final da missa, quando o estopim era aceso, o fogo corria como reza apressada, e então o espetáculo se revelava: luzes giravam em mandala, cores dançavam no escuro, e, por fim, surgia a imagem da santa. Quando parecia acabar, a surpresa: a imagem girava e subia, cercada de estrelas, e todas as cabeças se voltavam para o céu, como quem espera uma bênção descendo em claridade.

            Mas a mesma pólvora que escreve beleza no céu pode, descuidada, rasgar a terra. Santana também aprendeu isso no susto. Na rua de São Pedro, outra família moldava fogos dentro de casa, como tantos faziam, sem imaginar o perigo silencioso. Numa manhã comum, de café servido e conversas baixas, um estrondo quebrou o cotidiano. A mesa tremeu, os pires dançaram, e o coração disparou. A notícia correu mais rápido que a fumaça: a casa havia explodido. O que antes era ofício virou luto. A sobrevivente, poupada por um acaso, carregou para sempre o peso de ter ficado.

            Desde então, quando o céu de Santana se ilumina, a memória também acende. Celebramos, sim, a beleza dos fogos, a alegria que une gerações e transforma a noite em festa. Mas lembramos, com respeito, que o fogo pede cuidado. Que a arte da pólvora exige saber, proteção e responsabilidade. Porque a luz que encanta só é completa quando não deixa sombra de dor.

            Assim, a cidade segue olhando para o alto — com olhos de criança e coração de quem aprendeu —, desejando que cada clarão seja apenas alegria, e que o céu continue sendo lugar de sonho, nunca de perda.


 

quinta-feira, dezembro 25, 2025

QUANDO A LUA ERA A ESCOLA



 

            Nas noites quentes do sertão alagoano, o tempo parecia andar descalço. A lua subia devagar, como quem pede licença, e as estrelas acendiam uma a uma para assistir ao que viria: gente sentada nas portas, bancos de madeira rangendo manso, o cheiro da terra ainda quente do sol do dia. Um ou dois adultos se acomodavam para descansar da lida, olhos erguidos para o céu, e logo as crianças iam chegando, vindas de todos os cantos, trazendo no corpo o cansaço bom da brincadeira e no rosto a curiosidade acesa.

            Algumas vinham esbaforidas de tanto correr; outras ainda pulavam o avião riscado no chão, ocupando casas imaginárias com saltos precisos; havia as que giravam a corda num ritmo antigo e, mais adiante, dois times disputavam a queimada, a bola cruzando o escuro como um cometa breve. E, no meio de tudo, surgia o passar do anel, com suas palavras quase sagradas — “boca de forno” — e o riso contido de quem aguardava o castigo, que nunca era pesado, mas sempre ensinava.

            Quando a roda se fechava, a voz do adulto ganhava a noite. Era ali que o mundo se explicava sem pressa. Falava-se do dinheiro que mudava de nome e de valor sem avisar a quem morava longe, do papel guardado em potes, colchões e latas que, de repente, já não valia nada. Não era só um causo: era alerta. Aprendia-se que o tempo corre, que a informação é caminho, que o cuidado também é sabedoria. As crianças ouviam com olhos atentos, aprendendo a ler o mundo antes mesmo de saber ler letras.

            Depois vinham as botijas. Tesouros enterrados por mãos temerosas, guardados pela avareza ou pelo excesso de zelo. Dizia-se que a alma do guardador não descansava enquanto o ouro não encontrasse destino justo. E assim, em sonho, escolhia alguém para revelar o segredo, impondo regras antigas — gente de fé, número certo de pessoas, pureza de intenção — porque o tesouro, mais do que riqueza, exigia retidão. Se faltasse respeito ao combinado, a botija se escondia de novo, como lição repetida.

            Essas histórias desciam sobre as crianças como um manto leve. Não eram apenas fantasias: eram mapas. Ensinavam prudência, partilha, responsabilidade; mostravam que toda escolha tem consequência e que o saber passa de boca em boca como pão repartido. Os adultos, cercados de meninos e meninas, eram pontes entre tempos — como os griôs africanos, os anciãos indígenas, os trovadores da Europa feudal — fiadores de uma memória que não cabia em livro.

            Quando a noite se aprofundava e a hora do recolher chegava, cada criança levava consigo um pedaço do que ouvira. Um medo bom, uma coragem nascente, uma pergunta guardada. Dormiam sabendo que o dia seguinte seria continuação daquilo que se vive bem junto: brincar, ouvir, aprender.

            E assim cresciam. Com o corpo forte das brincadeiras e a mente acesa pelas histórias. Porque no sertão, sob a lua quente, aprender sempre foi um ato coletivo — e ensinar, um gesto de cuidado que molda o futuro sem fazer barulho.


 

quarta-feira, dezembro 24, 2025

QUANDO O RIO JÁ NÃO BASTAVA


Nas manhãs quentes do início dos anos 70, as crianças de Santana do Ipanema que moravam na rua Antônio Tavares começaram a descobrir que o mundo não cabia mais apenas na sombra das casas nem no alcance do chamado das mães. Cresciam em silêncio, como cresce o rio depois da chuva: primeiro alargando as margens, depois ganhando correnteza. A infância, que antes se resumia à esquina e ao quintal, passava a pedir distância, risco e horizonte.

            A escola já não era a de dona Penina, nem o antigo Grupo Escolar Padre Francisco Correia. Agora era o Ginásio Cenecista Santana, nome grande para meninos e meninas que também se sentiam maiores. Os mais velhos diziam, meio rindo, meio alertando, que aquelas crianças estavam “buscando outros pastos”. E estavam mesmo. Antes, quando pequenos, o Rio Ipanema era o limite do mundo — e já era imenso. Foi nele que aprenderam a nadar sem boia, a disputar partidas de futebol improvisadas na areia, a brincar de esconde-esconde entre as pedras, de mocinho e bandido nas margens secas. Construíram malocas de folhas de pé de mamona, boiaram em câmaras de ar de automóveis, em troncos de bananeira e de mulungu. Correram descalços sobre a areia quente, cavaram cacimbas, pescaram piabas e cascudos com as mãos escondidas sob as pedras. Alguns, mais ousados, se gabavam de pegar traíra.

            Havia também a engenhosidade da infância livre: armadilhas feitas com garrafas de champanhe, quebradas no fundo para enganar o peixe; copos fechados com bolacha de cabaça, deixando só um pequeno buraco de entrada; redes improvisadas de estopa, seguradas por duas crianças que cercavam a água com paciência. Brincavam com girinos, quebravam as ovas de sapos presas às pedras, sem saber que também ali aprendiam, sem aula nem livro, os mistérios da vida.

            Mas crescer é desejar ir mais longe. E, quando o Rio Ipanema já parecia conhecido demais, surgiu o chamado do Riacho do Bode. A expedição não era brincadeira: começava dias antes, em reuniões sérias, feitas à sombra de muros e calçadas. Planejava-se tudo sem adulto algum. Separavam anzóis, varas, chumbadas; compravam nylon; escolhiam tamanhos diferentes de anzol, como se fossem grandes pescadores. As iscas vinham do quintal, cavadas na terra úmida à procura de minhocas. Passavam na venda de seu Carrito para comprar cajuína, pão, mortadela ou salame, e algum confeito para adoçar a caminhada. Tudo era dividido, conferido, guardado com cuidado.

            No dia marcado, mochilas nas costas, boné ou chapéu na cabeça, seguiam em algazarra pela estrada, rindo alto, sentindo-se donos do tempo. Ao chegar, cada um ocupava seu lugar à beira da água. Começava o campeonato silencioso e competitivo: quem pegaria mais peixe, quem teria a melhor história para contar. Depois vinha o mergulho coletivo, o corpo jogado na água escura e funda, mais lago do que riacho, respeitada com certo temor. A fome chegava, e o piquenique improvisado virava festa. Comiam juntos, sentados na terra, partilhando pão, risos e segredos.

            No fim da tarde, o sol já baixo, juntavam tudo e iniciavam o caminho de volta. No peito, a sensação de vitória; na cabeça, o ensaio das desculpas que dariam às mães, pois quase nunca elas sabiam por onde andavam aqueles jovens aventureiros. E talvez nem precisassem saber. Aquelas crianças aprendiam sozinhas a se organizar, a confiar umas nas outras, a medir riscos, a cuidar do grupo. Aprendiam, sobretudo, que a liberdade tem o tamanho da coragem e da amizade.

            Hoje, quando a memória volta a essas águas, não é só o rio que corre: corre também a saudade de um tempo em que crescer era isso — caminhar para longe de casa sem adulto algum, mas carregando no coração a certeza de que o mundo podia ser explorado, desde que fosse feito em bando, com riso, invenção e sonho.


 

terça-feira, dezembro 23, 2025

A SEXTA-FEIRA NA QUAL FOMOS BENZIDOS



 

            No sertão, a fé não mora apenas nas igrejas: ela caminha descalça pelas ruas de barro, repousa nos terços pendurados atrás das portas e se espalha como cheiro de café quente ao amanhecer. É uma fé aprendida antes mesmo das palavras, passada no colo das mães, no conselho dos mais velhos, no gesto simples de fazer o sinal da cruz antes de sair de casa.

            O povo nordestino nasceu do encontro — e muitas vezes do choque — entre povos diversos. Do indígena, herdou o respeito pela natureza, o conhecimento das plantas, a leitura do vento e dos silêncios da mata. Do africano, trouxe a força do sagrado que dança, canta, incorpora e cura; a certeza de que o corpo também reza e que a palavra tem poder quando é dita com verdade. Do europeu, especialmente do português, vieram os santos, as procissões, as ladainhas, as promessas feitas em noites de aflição. Tudo isso se misturou, como rio que recebe outros rios, formando uma religiosidade própria, profunda, resistente.

            Em Santana do Ipanema dos anos 1960 e 1970, a cidade ainda aprendia a ser cidade. As ruas sem calçamento levantavam poeira no verão e lama no inverno. O mato insistia em crescer perto das casas, e o rio Ipanema era quintal, parque e escola da infância. Ali, entre brincadeiras e mergulhos, também morava o medo: o medo das cobras, habitantes antigas daquele chão quente e pedregoso.

            As mães sabiam. Sabiam que o mundo guarda perigos invisíveis e outros bem visíveis, rastejando silenciosos. Por isso, além dos conselhos e dos olhos atentos, buscavam proteção onde sempre buscaram: na fé. Era então que entrava em cena a benzedeira, o curador, o rezador — figuras que uniam oração, ritual e tradição. Eles não apenas benziam: reafirmavam um pacto coletivo de cuidado.

            Lembro como se fosse agora daquela Sexta-feira Santa. O dia ainda engatinhava quando fomos chamados para junto da cisterna. O silêncio era respeitoso, quase solene. Nosso pai chegou acompanhado de um homem estranho aos nossos olhos de criança, mas antigo no saber. Ele trazia uma caixa que carregava mistério e temor, ramos de pinhão-roxo, água benta, um terço gasto pelo uso e um gole de cachaça, que não era vício, era instrumento.

            Um a um, fomos benzidos. As palavras rezadas misturavam latim mal lembrado, devoção católica, conhecimento da mata e crença no invisível. Ali não havia contradição: tudo era fé. Segundo ele, a partir daquele momento, as cobras nos reconheceriam como protegidos. Fugiriam ao nos sentir. E, se por acaso cruzássemos com uma, ela é que não resistiria.

            Saímos dali mais leves. Talvez mais corajosos. Talvez mais obedientes aos limites que nos eram impostos. Ou simplesmente mais seguros, embalados pela certeza de que alguém — santo, reza, natureza ou todos juntos — cuidava de nós.

            Hoje, ao olhar para trás, não sei dizer se aquela benzedura nos protegia de verdade ou se nos ensinava a respeitar o espaço, a escutar os alertas da vida. Mas sei que ela nos ligava a algo maior: a uma cultura que não separa fé de cotidiano, que transforma medo em ritual e esperança em herança.

            Assim é o Nordeste: um território onde o sagrado se reinventa todos os dias, onde a fé não é apenas crença, é memória, identidade e resistência. Uma fé que não se explica — se sente.


 

segunda-feira, dezembro 22, 2025

PELOS CAMINHOS DA FÉ: MEMÓRIAS DE UMA INFÂNCIA RUMO A JUAZEIRO


 

            A fé sempre foi o chão firme do povo sertanejo. Era ela que sustentava os passos, mesmo quando a estrada era longa e o sol parecia não ter piedade. Entre missões, procissões, novenas e rezas baixas ao pé do oratório armado num canto da sala, a religião fazia morada permanente nas casas e nos corações. As imagens dos santos observavam em silêncio o vai-e-vem da vida, enquanto os adultos cumpriam seus rituais e, sem perceber, ensinavam às crianças que crer também era uma forma de caminhar.

            Lá longe, em Juazeiro do Norte, morava a fé em forma de homem: Padre Cícero. Seu nome era contado como história, cantado como bendito e repetido como promessa. Todos os anos, um bom número de santanenses deixava sua terra para pagar graças alcançadas ou pedir outras tantas. Iam de todo jeito: a pé, em grupos de romeiros que se formavam pelas estradas do sertão, enfrentando dias e noites, calor e frio, chuva e poeira. Homens, mulheres e crianças seguiam em cortejo, rezando, cantando e sofrendo juntos, porque a dor dividida parecia menor quando se caminhava por fé.

            Alguns seguiam no pau de arara, caminhões adaptados com bancos de madeira, cobertos por lona grossa. Era mais rápido, diziam, mas não menos cansativo. O corpo doía, a poeira entrava pelos olhos, o sol queimava a pele e o balanço da estrada castigava os ossos. Ainda assim, ninguém reclamava. Cada sacolejo era oferta, cada cansaço virava promessa.

            Em 1969, meus pais decidiram seguir para Juazeiro. Não iam a pé nem de caminhão: iam num jeep Toyota, orgulho do meu pai. Queriam pagar promessa, conhecer os lugares santos e, talvez, reforçar a esperança. Entre meus irmãos, fui o escolhido para acompanhar aquela aventura. Também foi conosco um vizinho, amigo antigo da família, desses que partilham silêncio e conversa sem esforço.

            Foi minha primeira viagem para tão longe. A estrada de barro parecia não ter fim. O carro levantava poeira, o sol entrava pelas janelas, e o tempo se arrastava. Para uma criança, dias de viagem são eternidades. O corpo cansava, a curiosidade despertava. Lembro de placas à beira do caminho, nomes de cidades que soavam grandes demais para mim. Uma delas dizia “Belém”. Perguntei à minha mãe se era ali que Jesus tinha nascido. Ela sorriu, talvez pela inocência, talvez pela fé que já germinava em mim sem que eu soubesse.

            Quando chegamos a Juazeiro, ficamos num hotel simples. O quarto, hoje, é só uma sombra na memória, mas o sentimento permanece inteiro. A primeira coisa que fizemos foi ir à igreja. A igreja onde repousava o corpo do Padre Cícero. Minha mãe ajoelhou-se, rezou demoradamente. Eu observava tudo em silêncio, sentindo que aquele lugar era diferente, pesado de história, leve de esperança.

            Depois fomos à feira. Cores, vozes, cheiros. Minha mãe comprou um busto do Padre Cícero, que por muitos anos ocupou lugar de respeito lá em casa, como se fosse um parente querido. Comprou também uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, pequena, mas carregada de devoção.

            Visitamos ainda o canteiro de obras da grande estátua do “Padim”. Naquele tempo, só o busto estava pronto. Subimos pelos arredores, tiramos fotos, compramos lembranças. Para mim, tudo era grande: a cidade, a fé, o homem que se tornava santo na boca do povo.

            No dia seguinte, participamos das missas, misturados a tantos outros romeiros. Gente simples, rostos marcados pelo sol, olhos cheios de esperança. Ali, entendi — ainda que de forma confusa — que a fé não mora só nas igrejas, mas nas estradas, no cansaço, na poeira, na coragem de quem caminha dias e dias por acreditar.

            Voltamos para casa cansados, mas felizes. A viagem terminou, mas nunca foi embora de mim. Ficou guardada nas pequenas lembranças, nas perguntas inocentes, no busto do Padre Cícero na sala, na certeza de que o sertanejo aprende cedo que crer é resistir.

            E até hoje, quando penso em Juazeiro, não vejo apenas uma cidade. Vejo uma estrada longa, um carro levantando poeira, uma criança olhando o mundo pela janela e um povo inteiro caminhando, de todo jeito, porque a fé, quando chama, sempre encontra um caminho.


 

domingo, dezembro 21, 2025

ENTRE O AZUL E O ENCARNADO: MEMÓRIAS DE UM NATAL IBÉRICO NO SERTÃO



            Santana do Ipanema, eita terra que mora dentro da gente. Há cidades que passam por nós; Santana, não. Ela fica. Fica nas palavras dos mais velhos, no gesto repetido, na fé cantada, na memória que atravessa gerações como um rio antigo que nunca seca. Dezembro chegava trazendo mais que o Natal: trazia o reencontro com a cultura, com o tempo lento e com a certeza de pertencimento.

            Os mais velhos sabiam — e ensinavam — que o fim do ano era tempo de renovar o corpo e a alma. E assim, de boca em boca, de exemplo em exemplo, a tradição seguia firme, conduzida por mãos femininas, por vozes jovens e por um povo inteiro que fazia da praça central o seu grande palco. No meio do século XX, Iluminata, filha de Misael, minha avó, era uma das guardiãs desse saber antigo. Coordenadora do pastoril, ela ajudava a costurar, não apenas os figurinos, mas os laços invisíveis entre o sertão e a Península Ibérica.

            Minha mãe, ainda moça, aos quinze anos, foi uma das pastorinhas. Vestia cor, música e esperança. Como ela, tantas outras meninas da sociedade santanense se colocavam diante do público, não apenas para dançar, mas para dar continuidade a um ritual que atravessara oceanos. O tempo avançou, os nomes mudaram, mas o pastoril resistiu — porque tradição que cria raiz no povo não se perde, se transforma.

            Recordo uma noite de dezembro, entre o fim dos anos 60 e o começo dos 70. A praça central iluminada, o palanque armado, bancos e cadeiras dispostos ao redor como se o mundo coubesse ali. O pastoril ia começar. Aquele auto brasileiro, herdeiro direto dos dramas sacros ibéricos, trazia nas canções espanholas o fio que ligava o sertão nordestino a Belém da Judéia, numa viagem simbólica feita de canto, disputa e devoção.

            Dois cordões davam vida ao enredo: o azul e o encarnado. Meninas vestidas de cores opostas, mas unidas pela mesma fé e pelo mesmo chão. A Mestra comandava o encarnado; a Contra Mestra, o azul. No centro, a Diana, síntese das cores, ponto de equilíbrio. Ao redor, figuras livres — o anjo, a borboleta, a cigana, a camponesa — personagens que ampliavam o imaginário e misturavam o sagrado e o profano, marca profunda da herança ibérica no Nordeste.

            O povo não assistia calado. Aplaudia, torcia, discutia, brigava e comprava votos. Havia quem fosse azul até o fim, quem defendesse o encarnado com fervor. A disputa era intensa, mas festiva. Vencia quem vendesse mais votos, mas ganhava mesmo a cultura, fortalecida a cada apresentação. As músicas conduziam a noite: a apresentação dos cordões, as alvíssaras, a noite de Natal, o convite para ir a Belém, a disputa das cores e, por fim, a despedida — sempre carregada de emoção, como se cada encerramento fosse também uma promessa de retorno.

            Assim, entre cantos espanhóis e chão sertanejo, o pastoril firmou-se como prova viva da força da cultura ibérica no Nordeste brasileiro. Uma herança reinventada pelo povo, moldada pelo clima, pela fé e pela alegria de Santana do Ipanema. E enquanto houver memória, enquanto alguém se lembrar dessas noites de dezembro, o azul e o encarnado continuarão dançando na praça da lembrança, iluminando o passado e ensinando o futuro.


 

JULHO EM SANTANA: QUANDO A JUVENTUDE VIRAVA FESTA

             Santana do Ipanema sempre foi mais que um ponto no mapa. Foi — e ainda é — um lugar de pertencimento, um chão que cria raízes i...