sábado, dezembro 20, 2025

ÀS MARGENS DO IPANEMA: FÉ, CULTURA E INFÂNCIA NOS ANOS 70


 

            Percorrer a margem esquerda do rio Ipanema, um pouco adiante do bairro de São Pedro, era atravessar uma fronteira invisível entre o cotidiano e o sagrado. Ali se estendia o Bebedouro, também chamado Maniçoba, um território de casas simples, erguidas com o esforço diário de agricultores, pedreiros, cozinheiras, lavadeiras, passadeiras, feirantes e vaqueiros. Gente que aprendia a vida no trabalho e ensinava, sem saber, lições profundas às crianças que por ali passavam.

            Nos anos 70, as crianças de Santana do Ipanema faziam do rio e de suas margens um grande quintal. Em meio às brincadeiras, iam descobrindo o Bebedouro como quem descobre um livro vivo. Cada passo era uma página, cada encontro uma história. Foi assim também naquela aula de campo do ginásio Santana, quando o professor Clerisvaldo conduziu seus alunos com pranchetas, folhas de papel A4, lápis e borrachas, ensinando que a geografia não mora apenas nos livros, mas se revela no chão batido, nas casas, nos caminhos e nas pessoas.

            Enquanto desenhavam mapas, os alunos aprendiam a ler o mundo. Observavam os tipos de construção, o traçado das ruas, o curso do rio. E, no meio desse aprendizado, surgiam as ruínas da antiga capela de São João Batista, construída, dizia-se, por volta de 1917. As paredes gastas pelo tempo guardavam rezas antigas, promessas sussurradas e a fé de gerações. Mais adiante, a capela de São Benedito pulsava viva, sobretudo nos dias de festa.

            Quando se aproximavam os festejos do santo, o Bebedouro se transformava. A comunidade se unia como um só corpo: organizava a banda de pífano e zabumba, preparava o cortejo e saía pelos bairros de Santana, passando de casa em casa. No centro, batiam às portas pedindo ajuda, e recebiam de tudo: alimentos, objetos, dinheiro, fé. Cada doação era um gesto de pertencimento, uma prova de que o sagrado se constrói coletivamente.

            À frente do cortejo iam as mulheres, vestidas de preto, com escapulários ao pescoço e a imagem de São Benedito cuidadosamente arrumada dentro de uma caixa, enfeitada com flores e protegida por um tecido de nylon. À frente da imagem, um espaço aberto para pedidos e moedas, onde o povo depositava dores, esperanças e agradecimentos. Logo atrás vinha a banda de pífano e zabumba, tocando sem cessar, acordando ruas, corações e memórias.

            Em volta, surgiam os Mateus, figuras coloridas e inquietas, com chapéus pontudos cobertos de espelhos, chicotes estalando no chão e rostos pintados de carvão. Eram o riso e o espanto, o profano dançando com o sagrado. As crianças corriam, riam, seguiam o cortejo, encantadas com aquele mundo em movimento. Sem perceber, aprendiam sobre fé, cultura, solidariedade e identidade.

            Esses eventos eram mais que festas: eram salas de aula abertas. Ali, as crianças aprendiam que a religião não se separa da vida, que a cultura nasce do povo e que a memória se constrói no coletivo. Os anos 70 em Santana do Ipanema ensinaram, com música, devoção e alegria, que crescer é também guardar dentro de si o som da zabumba, o brilho dos espelhos dos Mateus e a certeza de que pertencer a um lugar é carregar suas histórias para sempre.


 

sexta-feira, dezembro 19, 2025

DEZEMBRO QUE ENSINA A SONHAR



            No início de dezembro, quando o ano já começava a se despedir em passos lentos, Dona Penina abria o armário da sala e retirava o maço de folhas ainda mornas do mimeógrafo. Havia nelas um cheiro inconfundível de álcool, misturado à promessa de algo especial. Papai Noel surgia impresso em traços simples, rodeado por estrelinhas e palavras doces sobre o Natal. Cada folha era entregue como quem entrega uma missão silenciosa: dar cor ao próprio caminho.

            As crianças, com as mochilas gastas e os lápis de cor bem apontados, iniciavam a pintura com cuidado e esperança. Não era apenas um desenho; era a capa do caderno de avaliações, o rosto visível de tudo o que havia sido aprendido ao longo do ano. Dentro daquelas caixas de camisas guardadas na escola repousavam histórias de esforço, erros, acertos, letras ainda trêmulas que aos poucos ganhavam firmeza. Ao final do ano, tudo se transformava em livro — um retrato do crescimento, uma memória encadernada da infância. A educação, ali, ensinava mais que contas e palavras: ensinava a construir sentido.

            Enquanto isso, a cidade se vestia de festa. O centro de Santana do Ipanema pulsava com sons e cores. Das lojas de tecidos escapavam músicas natalinas, repetidas sem cansaço, anunciando que todos eram, de algum modo, filhos do mesmo sonho. As mães, com suas bolsinhas apertadas de dinheiro, iam e vinham carregando tecidos dobrados nos braços, levando junto a esperança de roupas novas para a noite santa. Armarinhos fervilhavam, botões eram forrados, linhas se cruzavam, e costureiras e alfaiates esticavam os dias até tarde, costurando mais que roupas: costurando alegria.

            Em casa, a família se unia na grande faxina de Natal. A água retirada da cisterna corria pelo chão, lavando poeiras antigas e abrindo espaço para o novo. O piso brilhava após a cera, refletindo o cuidado coletivo. Cada gesto tinha o peso de um ritual, pois preparar a casa era também preparar o coração. A árvore de Natal surgia como um altar de afetos. As mãos pequenas penduravam bolinhas, as maiores ajeitavam imagens, e, por fim, a estrela era colocada no alto — sinal de fé e direção. Ao lado, o presépio lembrava o nascimento simples de Jesus, ensinando, em silêncio, que a grandeza pode morar na humildade. A religião ali não era apenas doutrina; era encontro, esperança e gratidão.

            Com o fim das aulas, vinha a certeza da aprovação, a alegria compartilhada com a família, o descanso merecido. O livro de memórias escolares circulava entre olhares orgulhosos, confirmando que o aprendizado tinha raízes profundas. Agora era tempo de festa, de férias, de Natal — e com ele, de sonhos renovados.

            Na véspera do dia 24, a cozinha tornava-se o coração da casa. O fogão a carvão permanecia aceso, firme como um guardião, enquanto panelas se multiplicavam. Bolos eram batidos à mão, doces descansavam na geladeira, o pavê aguardava a ceia. Um peru era preparado com solenidade, símbolo de celebração. Tudo era feito em nome da alegria, da partilha e do nascimento de Cristo.

            À noite, a família seguia para a igreja. A homilia de Natal ecoava palavras antigas e sempre novas, a missa unia vozes e silêncios. Depois, havia ainda tempo para as risadas no parque de Moacir, antes do retorno para casa. A ceia encerrava o dia, mas não o encanto.

            Antes de dormir, as crianças colocavam meias próximas à árvore. Era um gesto simples, carregado de fé e imaginação. Ao amanhecer, os olhos se abriam rápido, buscando com ansiedade o chão aos pés da cama. Ali estavam os presentes — às vezes uma bola, um carrinho, uma boneca, uma bicicleta — objetos modestos, mas gigantes em significado. E antes mesmo do café, a rua se enchia de crianças exibindo seus tesouros, compartilhando risos e comparações.

            Assim era a infância em Santana do Ipanema: um tempo em que educação, religião, família e celebrações se entrelaçavam para sustentar sonhos. Cada dezembro ensinava que aprender é crescer, que crer é esperar, que celebrar é agradecer e que sonhar é o que mantém o ser humano em movimento. E, mesmo quando os anos passam, essas memórias continuam acesas, como uma estrela no alto da árvore, iluminando o caminho de quem um dia foi criança.


 

quinta-feira, dezembro 18, 2025

SABORES DA INFÂNCIA: FRUTAS, AFETO E VIDA NO SERTÃO DE SANTANA


 

            Cada dia amanhecia diferente para as crianças nascidas e criadas em Santana do Ipanema. A cidade oferecia tudo o que era essencial para crescer: espaço para brincar livre, escola para aprender, igreja para cultivar a fé e, sobretudo, exemplos vivos dos pais, avós e dos mais velhos, que ensinavam mais pelos gestos do que pelas palavras.

            Quando o assunto era alimentação, a infância santanense parecia ter um balaio sempre cheio. As frutas vinham das terras da família, dos quintais dos vizinhos, das propriedades de amigos e até de desconhecidos, porque naquele tempo a fartura da terra não conhecia cercas rígidas. O feijão tinha sua festa, o milho reinava nas fogueiras e bandeirolas de junho, e as frutas ocupavam um lugar diário e silencioso à mesa das crianças.

            No quintal da casa de Misael, o bisavô, havia uma goiabeira enorme, dessas que pareciam abraçar o céu. Era dali que ele tirava sacos cheios de goiabas para presentear os bisnetos. Enquanto as crianças se lambuzavam com o doce da fruta madura, Misael permanecia sentado na cadeira de balanço, observando em silêncio, como quem guarda o tempo dentro do peito. Aquele gesto simples — colher, oferecer, compartilhar — alimentava mais do que o corpo; fortalecia os laços e ensinava cuidado.

            O sábado era outro capítulo dessa história. Dia de feira, dia de cores e cheiros. Na feira de Santana havia um espaço só para elas: a feira das frutas. Conforme a época do ano, a variedade se espalhava pelas bancas como um arco-íris sertanejo. O caju era rei. Que criança não apreciava um caju até o fim, guardava as castanhas e, em casa, improvisava uma lata de óleo sobre tijolos, acendia o carvão e, em poucos minutos, tinha castanhas assadas? Sabia-se, desde cedo, que não se tomava leite antes de comer caju, que o sumo manchava a roupa, e esses saberes passavam de geração em geração, como uma cartilha oral da vida.

            Havia também pinha, manga, jaca mole ou dura, umbu para virar umbuzada, sorvete de umbu-cajá, acerola, graviola — o famoso coração-da-índia. O coco aparecia de muitas formas, inclusive o coco de ouricuri, transformado pelas vendedoras em rosários. As crianças, com aqueles colares no pescoço, iam comendo conta por conta, rezando e se alimentando ao mesmo tempo. Tinha ainda maracujá para refrescar o calor escaldante do sertão, tamarindo, mamão, melancia, pitomba, jabuticaba, melão.

            Colher a fruta no pé era um ritual. O cheiro da fruta madura, o cuidado ao escolher, o lavar na bica ou no pote de água, o comer ali mesmo, à sombra da árvore. Não havia embalagem, nem pressa. A saúde vinha da terra, do sol, da água e das mãos calejadas que plantavam e cuidavam. Aquela alimentação simples, natural e colorida fortalecia o corpo das crianças e criava nelas um respeito profundo pela natureza.

            Hoje, ao lembrar dessa infância, entende-se que aquelas frutas eram mais do que alimento: eram memória, afeto e aprendizado. Eram a prova de que crescer saudável também é crescer ligado à terra, sabendo de onde vem o que nos sustenta e reconhecendo que, muitas vezes, a maior riqueza está pendurada em um galho, esperando apenas ser colhida.

 

quarta-feira, dezembro 17, 2025

QUANDO O MUNDO CABE NA SALA DE CASA


 

            Em Santana do Ipanema, o aprendizado não cabia apenas dentro das paredes da escola. Ele escorria pelas ruas quentes, atravessava as calçadas de barro batido e entrava nas casas pela porta da frente, sempre aberto, sempre vivo. As crianças aprendiam ouvindo. O rádio, pousado num canto da sala, falava grosso, chiava, cantava e ensinava. Era por ele que o mundo chegava primeiro: notícias distantes, músicas que vinham de longe, vozes que pareciam morar em outras cidades e outros tempos. Entre uma canção e outra, a imaginação se alargava sem pedir licença.

            A escola ensinava as letras, os números e os mapas, mas era preciso mais. A igreja ajudava a organizar os sentimentos, dava nome ao silêncio e às perguntas profundas. Já a família fazia sua parte com zelo quase invisível: apresentava o mundo aos poucos, como quem abre janelas para o vento entrar sem derrubar a casa.

            Nem todas as famílias faziam assim, é verdade. Mas algumas tinham esse compromisso silencioso de ampliar horizontes. Levavam os filhos ao cinema. Mesmo que fosse só na cidade vizinha, planejavam viagens curtas, que pareciam longas aventuras. E quando não dava para ir longe, traziam o mundo para dentro de casa. Na sala, a vitrola girava como um coração mecânico. O ritual de comprar discos novos era levado a sério. Roberto Carlos embalava os domingos, Agnaldo Timóteo fazia a casa silenciar, Rita Lee sacudia os pensamentos, Elvis Presley atravessava oceanos e pousava ali, entre o sofá e a mesa de centro. A música era partilhada como pão: todos ouviam, todos sentiam.

            Na banca de revistas, a semana tinha cheiro de papel novo. A mãe escolhia Capricho, Sétimo Céu ou Manequim. O pai folheava a Isto É, Manchete, os jornais grandes que falavam do Brasil e do mundo. As crianças saíam carregadas de sonhos coloridos: Tio Patinhas, Turma da Mônica, Tex, Tarzan, Super-Homem, Batman. Cada revista era uma porta secreta. Os álbuns de figurinhas espalhavam-se pelo chão. Copa do Mundo, heróis, artistas. As figurinhas eram tesouros negociados com seriedade: trocas, promessas, apostas no bafo. Colecionavam-se imagens, palavras, chaveiros, pequenas coisas que davam a sensação de pertencer a algo maior.

            Lia-se muito, mesmo sem perceber que era leitura. Caça-palavras, quadrinhos, manchetes de jornal. Gazeta de Alagoas, Jornal de Alagoas, Diário de Pernambuco, Folha de São Paulo. Os nomes dos jornais soavam grandes demais para uma cidade pequena, mas cabiam perfeitamente nas mãos curiosas das crianças. Assim, o conhecimento crescia num movimento de troca. Os adultos ensinavam sem discursos longos, as crianças aprendiam brincando. Em Santana do Ipanema, aprender era viver. E viver, naquele tempo, era um exercício diário de escuta, partilha e imaginação — um mundo inteiro cabendo dentro de uma casa, de um disco girando, de uma revista recém-aberta.


 

terça-feira, dezembro 16, 2025

OS CAMINHOS DA FÉ NA INFÂNCIA SERTANEJA


             A quarta-feira chegava como um suspiro pesado, vestida de roxo e silêncio. “Oh, quarta-feira ingrata, chegou tão depressa só para contrariar”, diziam os mais velhos, e a frase ecoava pelas ruas de Santana do Ipanema como um sino invisível anunciando o fim da alegria solta do carnaval e o começo de um tempo outro: a Quaresma. Um tempo de dentro, de freio no corpo e escuta da alma.

            Nas casas, os quadros de santos, os crucifixos e as imagens que sempre vigiaram a vida cotidiana eram cobertos com tecidos roxos. As paredes ficavam estranhas, como se os santos também estivessem em recolhimento. As crianças aprendiam cedo que aquele gesto simples não era castigo, mas respeito. Aprendiam que nem tudo precisa estar à mostra, que há momentos de esconder para compreender melhor.

            Na igreja matriz de Senhora Santana, os bancos se dividiam em duas carreiras: de um lado os homens, do outro as mulheres. Elas chegavam de véu na cabeça, sinal de humildade e tradição. Para as crianças, aquilo tudo parecia uma grande coreografia sagrada. Cada gesto tinha um sentido, cada silêncio ensinava mais do que muitas palavras. Ali se aprendia a esperar, a ouvir, a permanecer quieto — virtudes raras, mas fundamentais para a vida.

            A Semana Santa era o coração desse aprendizado. Domingo de Ramos, com os galhos levantados como esperança verde. A Procissão do Encontro, carregada de emoção. O Lava-pés, que ensinava que até o maior deve saber se abaixar. O Senhor Morto, quando o mundo parecia parar e o choro contido ensinava sobre a dor. O Sábado de Aleluia, misto de medo e expectativa. E, por fim, a Ressurreição, quando a alegria voltava como quem retorna para casa.

            As crianças participavam de tudo. Faziam jejum do jeito que podiam, respeitavam o dia de não comer carne, iam à igreja ajoelhar — mesmo que o tempo parecesse eterno para pernas tão pequenas. Confessavam, comungavam, aprendiam a pedir perdão e a recomeçar. Aprendiam que errar faz parte, mas reconhecer o erro é o que forma o caráter.

            Na sexta-feira, a fé virava gesto concreto. As famílias separavam arroz, feijão, farinha, pedaços de bacalhau. Era para repartir com quem tinha menos. As crianças observavam, ajudavam, perguntavam. E assim aprendiam, sem lição escrita, que fé sem partilha é vazia, e que dividir é uma forma silenciosa de rezar. Havia ainda a subida à Serra da Micro-ondas, o ponto mais alto da cidade. A procissão seguia pelos becos, descia ao rio, cruzava a velha ponte de pedra, passava pelas terras de seu Ronasso e subia o morro. Descalços, com velas acesas, relíquias nas mãos e promessas no coração, homens, mulheres e crianças caminhavam juntos. Lá em cima, diante do cruzeiro e da pequena igrejinha, Santana do Ipanema se abria inteira aos olhos. E as crianças aprendiam que a fé também é esforço, é caminho íngreme, é persistência.

            O sábado tinha outro tom. As ruas se enchiam de risos nervosos e barulho com a malhação. A história de que o padre Cirilo estava trancado na igreja procurando a aleluia — e que, se não encontrasse, o mundo acabaria — misturava medo e fantasia. Mas até isso ensinava: que o fim só existe para dar lugar a um recomeço.

            No domingo da Ressurreição, tudo mudava. O roxo cedia lugar à luz, os santos eram descobertos, os sinos tocavam diferente. A cidade respirava alegria. As crianças sentiam, mesmo sem saber explicar, que algo importante havia sido aprendido. Que depois da dor vem a esperança. Que depois do silêncio, a palavra. Que depois da morte, a vida.

            Assim, entre véus, jejuns, procissões e partilhas, as crianças de Santana do Ipanema foram sendo moldadas. A fé não era apenas rezada — era vivida. E desses ritos simples nasceu uma formação moral profunda: respeito, solidariedade, humildade e esperança. Valores que, como a cidade vista do alto da serra, permanecem gravados na memória para sempre.

 

segunda-feira, dezembro 15, 2025

UM TABULEIRO DE MEMÓRIAS

            


             A infância em Santana do Ipanema não se mede em anos, mede-se em passos. Passos dados na rua Antônio Tavares, a rua do Sebo, onde cada porta aberta era uma lição silenciosa e cada som era uma aula sem caderno. A criança aprendia antes mesmo de saber que estava aprendendo. Aprendia com o cheiro da terra molhada depois da chuva forte de verão, quando os trovões pareciam conversar com os telhados e a água corria apressada pelas calhas, como se também tivesse compromissos. Aprendia com o calor das tardes de dezembro, com o suor escorrendo e o tempo passando devagar, ensinando que o trabalho exige paciência.

            Logo cedo, no caminho da padaria, o canto estridente dos pássaros engaiolados anunciava o dia. O galo-de-campina, em frente à alfaiataria de Juca, cantava como se costurasse o tempo com a própria voz. Dentro da casa-oficina, o zig-zag da máquina de costura respondia ao canto do pássaro. Era música de trabalho. Juca Alfaiate transformava pano em destino: ternos para casamentos, formaturas e despedidas. As crianças observavam os manequins alinhados, vestidos de sonhos alheios, e aprendiam que as mãos humanas eram capazes de criar beleza, sustento e identidade.

            Do outro lado da rua, Pedro, na estofaria, ensinava sem palavras que nada precisava ser descartado tão facilmente. Sofás e poltronas ganhavam nova vida, assim como a cidade ganhava movimento. A criança entendia, ainda que sem nomear, o valor do reaproveitar, do cuidar, do manter vivo o que parecia gasto.

            Descendo em direção ao rio Ipanema, estava Bastos, o homem do couro. Seu ofício tinha cheiro forte e som de faca cortando matéria bruta. Jibões, selas, alpargatas — o sertão passava por suas mãos. Os pássaros cantavam em gaiolas, alegrando os ouvidos humanos, enquanto a criança começava, ainda que timidamente, a perceber que o mundo carrega contradições: beleza e prisão, canto e silêncio, trabalho e limites.

            Mais adiante, a gráfica de Cajueiro pulsava como um coração mecânico. Tipos de metal, papel, tinta preta nos aventais. Ali nasciam notas fiscais, calendários, anúncios. A criança via as letras ganharem forma e aprendia que o trabalho também comunica, registra, organiza o tempo e a vida coletiva.

            Sentado à porta, o senhor Rêgo trançava palhinha com a calma de quem sabe que o saber só permanece se for partilhado. Assim como Antônio Dantas, na marcenaria, ele deixava as crianças se aproximarem, ajudarem, aprenderem. Não era apenas madeira ou palha: era o ensinamento de que o trabalho digno se transmite pelo exemplo, pelo gesto paciente, pela confiança no outro.

            A rua do Sebo era uma escola sem paredes. A criança crescia entendendo que o mundo se constrói todos os dias, com esforço, criatividade e cooperação. Mesmo sem saber que o tempo traria máquinas e mudanças, ela guardava no corpo e na memória a certeza de que o trabalho humano tem alma. Hoje, ao revisitar essas ruas pela lembrança, entende-se que conviver com os meios de produção não era apenas observar o ganha-pão dos adultos. Era aprender sobre pertencimento, responsabilidade e futuro. Era descobrir que cada profissão carrega uma história e que toda cidade se sustenta nas mãos de quem cria, conserta, imprime, costura e ensina.

            A infância em Santana do Ipanema foi isso: um tabuleiro de memórias onde cada casa era uma peça, cada trabalhador um mestre, e cada criança, sem perceber, já ensaiava os passos do mundo.

domingo, dezembro 14, 2025

QUANDO OS BICHOS MORAVAM NOS QUINTAIS

 



            A sociedade sempre caminhou empurrada por suas próprias necessidades. Desde os tempos mais antigos, o ser humano cria regras, escreve leis, estabelece limites, na tentativa de melhorar a convivência entre si e com os outros seres que dividem a terra. Nem sempre essas regras chegam ao mesmo tempo a todos os lugares, nem são compreendidas da mesma forma. No sertão brasileiro, isso ficou muito claro ao longo dos anos sessenta e setenta do século XX.

            Já existiam leis que falavam da proteção dos animais silvestres, mas elas pareciam distantes da realidade de cidades como Santana do Ipanema. A preocupação maior era abrir estradas, erguer prédios, fazer a cidade crescer, vencer a seca, garantir o básico. A natureza continuava ali, abundante aos olhos de quem nela vivia, e os animais silvestres ainda faziam parte do cotidiano das famílias, quase como uma extensão do quintal.

            Muitas crianças daquela época cresceram dividindo a casa com bichos que hoje só se veem em livros ou reservas ambientais. Quase sempre chegavam filhotes, encontrados durante as caçadas dos homens ou recolhidos em viagens pelas rodovias recém-abertas. Um sagui passava de mão em mão, preso pela cintura a um cordão, divertindo a meninada com seus pulos rápidos e olhos vivos. Pequenos macacos viviam situação parecida, tratados como brinquedos curiosos, sem que ninguém imaginasse o quanto aquilo lhes custava.

            Nos fundos das casas, havia espaços reservados aos cágados. Ali, reproduziam-se como galinhas, alimentados diariamente, crescendo sob o olhar atento das famílias. Em dias de festa, escolhia-se um ou dois, e a cozinheira preparava o prato principal, servido com naturalidade, como se fazia com qualquer criação doméstica.

            Em quintais maiores, emas e seriemas caminhavam livres, enchendo as manhãs com seus cantos inconfundíveis. Papagaios viviam presos por pequenas correntes ao pé, acomodados em engenhocas de madeira com um poleiro improvisado. Passavam os dias repetindo palavras, gritos e risadas, ecoando tudo o que ouviam, para orgulho dos donos e alegria das visitas. Havia ainda o bicho-preguiça, colocado nos galhos das árvores do jardim. Movia-se lentamente, quase como se o tempo fosse outro para ele, enquanto as crianças observavam, fascinadas, cada pequeno gesto. Em algumas casas, criavam-se pequenos veados como se fossem ovelhas, caminhando mansos pelo terreno, aceitos como parte da família. Nas feiras, mocós eram vendidos sem espanto, teiús permaneciam em cativeiro, pássaros cantavam presos em gaiolas e gaiolões. Tudo acontecia à luz do dia, sem fiscalização, sem medo, sem a noção clara de que aquilo pudesse ser errado.

            Para as crianças, era festa, era brincadeira, era encantamento. Era a sensação de domínio sobre um ser vivo que despertava curiosidade e afeto. Para os pais, muitas vezes, era o troféu de uma caçada bem-sucedida, sinal de habilidade e coragem. Mas, para os animais, era o cativeiro, a perda da liberdade, o afastamento definitivo da vida para a qual nasceram.

            Hoje, o tempo ensinou outras coisas. A sociedade mudou, as leis ganharam voz, a consciência ambiental cresceu. Olhar para essas memórias não é negar o carinho que existia, nem apagar a realidade daquele tempo. É compreender que era outra época, com outros valores e prioridades, mas também reconhecer que aprender é transformar. Esses bichos que um dia habitaram quintais e salas agora nos pedem algo simples e profundo: respeito. Que continuem vivos nas lembranças, nas histórias contadas com afeto, mas que permaneçam livres na natureza, onde sempre foi o seu lugar.


JULHO EM SANTANA: QUANDO A JUVENTUDE VIRAVA FESTA

             Santana do Ipanema sempre foi mais que um ponto no mapa. Foi — e ainda é — um lugar de pertencimento, um chão que cria raízes i...