domingo, novembro 09, 2025

A FESTA DO FEIJÃO

 

            Quando setembro se aproximava, Santana do Ipanema mudava de ritmo. O calor parecia menos severo, as janelas ganhavam cores novas e o cheiro de tinta fresca se misturava ao de bolo de milho e café torrado. Era o tempo da Festa do Feijão, o momento mais esperado do ano — quando o povo sertanejo deixava por um instante o peso da lida e se vestia de alegria. Na véspera, as ruas eram varridas, os muros caiados e as bandeirolas coloridas tremulavam com o vento que soprava do rio. Desde cedo, os moradores se alinhavam nas calçadas, com cadeiras de madeira, sombrinhas e olhos brilhando de expectativa.

            Lá vinha o desfile dos carros alegóricos, abrindo a manhã de festa.

            Os carros, enfeitados com palhas, grãos e flores do campo, contavam histórias do sertão: o plantio, a colheita, o trabalho do homem e a generosidade da terra. No maior deles, a Rainha do Feijão surgia em trajes majestosos, com uma coroa feita de palha trançada e sementes douradas. Sorria e acenava para o povo, representando a fartura e a esperança que todo sertanejo carregava no peito.

            As escolas da cidade davam o tom educativo e cultural ao desfile. O Grupo Escolar Padre Francisco Correia trazia crianças vestidas de agricultores, cantando versos sobre o ciclo da lavoura e o valor da terra. A Escola Estadual Professor Deraldo Campos vinha com um carro alegórico que mostrava o plantio do feijão — pequenos lavradores empunhando enxadas de madeira, simbolizando o esforço e o amor ao campo. Logo atrás, o Grupo Escolar Ormindo Barros encerrava o cortejo com danças e dramatizações sobre o Rio Ipanema e a vida simples do povo de Santana.

            Entre os carros alegóricos, vinham os plantadores de feijão de verdade — homens e mulheres com seus chapéus de palha, chapéus de couro, enxadas e foices reluzindo ao sol. Alguns empurravam máquinas manuais de plantação, outros conduziam carros de bois decorados com bandeiras e ramos verdes. Eram os verdadeiros protagonistas da festa, os que faziam nascer da terra seca o alimento que unia a cidade.

            O povo aplaudia, sorria, se emocionava.

            As crianças corriam atrás dos carros, os comerciantes distribuíam caldo de cana, bolo de goma, amendoim e café. Havia música, cheiro de comida e um sentimento coletivo de orgulho — como se a vida inteira do sertão estivesse ali, condensada num único dia.

            Quando o último carro passou, o céu começou a mudar.

            Nuvens pesadas se formaram no alto da serra, e uma brisa fria desceu pela avenida. As primeiras gotas de chuva caíram devagar, como bênção, sobre o povo que ainda permanecia nas calçadas, olhando para o alto e sorrindo. Era como se a própria terra respondesse à festa, agradecendo pelo reconhecimento.

            E assim, entre o som do tambor e o cheiro de chão molhado, a Festa do Feijão encerrava mais um ano. Deixava no coração do povo uma certeza antiga e terna: no sertão, tudo passa — menos a fé, o trabalho e a alegria de celebrar o que nasce da terra.

sábado, novembro 08, 2025

SÁBADO DE FEIRA EM SANTANA DO IPANEMA

 

            Era começo dos anos 1970 e Santana do Ipanema amanhecia com o cheiro da feira. O sol ainda nem tinha rompido a serra, e já se ouvia o burburinho das vozes, o som das carroças, o chiar das panelas de barro batendo umas nas outras.      

            Era sábado — o grande dia.

            Desde a quarta-feira já havia feira, mas a de sábado era diferente. Era a feira principal, o coração pulsando da cidade. Gente vinha de toda parte: das fazendas próximas, dos povoados distantes e até de outros municípios. Chegavam montados em burros, carro de boi, em caminhões, ou a pé, trazendo o que a terra e o trabalho lhes davam.

            A cidade parecia crescer para caber tanta vida.

            A feira se estendia por boa parte do centro, e havia uma ordem silenciosa que todos respeitavam. Lá no alto, quase na entrada norte, ficava a feira da farinha — o pó branco que sustentava famílias inteiras. Serras de sacos empilhados, medidos na cuia, vendidos no alvoroço das vozes misturadas. Descendo um pouco, o cenário mudava: era o espaço dos oleiros e artesãos da argila. Ali se via de tudo — potes, panelas, pratos, quartinhas, bois de barro, jarros com flores secas. Cada peça era feita à mão, moldada com a paciência de quem aprendeu observando o ritmo do rio e da terra. Mais abaixo vinha a feira das frutas e verduras, um mar de cores em meio ao barro. Havia banana, laranja, pitomba, mamão, melancia, tudo o que o sertão generoso ainda conseguia oferecer. O cheiro era doce, e os fregueses se acotovelavam escolhendo as melhores frutas da estação. Logo depois, o aroma mudava de novo. Era o trecho das barracas de comidas e quitandas — queijo fresco, bolo de mandioca, tapioca quente, quebra-queixo, morosilha, doce de leite, de caju, de mamão.

            Ali, ninguém passava com fome.

            As mulheres que vendiam eram conhecidas pelos fregueses, e bastava um sorriso para garantir um pedaço a mais, “de cortesia”.

            Seguindo pela rua, o barulho dos martelos anunciava o espaço das ferramentas rurais. Enxadas, foices, facões e alicates eram expostos em bancas improvisadas, reluzindo ao sol. Mais adiante, num espaço coberto, o açougue. As carnes penduradas nos ganchos balançavam com o vento; o chão, de pedra, era frio e úmido. Os açougueiros pesavam a carne nas balanças de ferro, com mãos firmes e olhos atentos. Saindo dali, voltava-se ao tumulto das barracas. Vendia-se de tudo: tecidos, utensílios, miudezas e até promessas.

            Os ourives chamavam os matutos, exibindo anéis e cordões reluzentes:

— É ouro bom, meu amigo! Ouro de Arapiraca!

            E muitos acreditavam, encantados com o brilho das pedras falsas e o carisma do vendedor.

            Em frente à Igreja Matriz, o corredor se alargava. Era o espaço das roupas e calçados, um desfile de cores e tecidos vindos de longe. As moças experimentavam vestidos, os rapazes olhavam de soslaio, e o sino da igreja lembrava, de tempos em tempos, que era sábado — dia de feira e de fé.

            Entre as barracas, circulavam as carroças de madeira — pequenas, com duas alças e uma roda à frente. Os meninos e adolescentes que as empurravam eram figuras conhecidas da feira. As donas de casa os contratavam logo cedo, e eles seguiam o dia todo empurrando as carroças pelas ruas poeirentas, recolhendo as compras, rindo, suando, crescendo entre pregões e cheiros de feira. Ao final, levavam as mercadorias até as casas das famílias, muitas vezes ganhando, além do trocado, um pedaço de bolo e um copo de café.

            Quando o sol começava a baixar e o sino das cinco tocava na Matriz, a feira se desfazia lentamente. Restava o chão sujo de cascas e farelos, o cheiro forte da carne, o eco das vozes. Mas o coração da cidade continuava quente, satisfeito — como quem cumpriu um ritual antigo e sagrado.

            Era assim, todo sábado, em Santana do Ipanema.

            Um dia comum que se tornava memória. Um retrato do sertão que vivia, vendia e sonhava entre bancas, carroças e o rumor eterno da vida simples.

sexta-feira, novembro 07, 2025

CANDINHO E O RIO DE AREIA

               Nos idos de 1940, em Santana do Ipanema, o sertão alagoano fervia sob o sol que parecia nunca descansar. O Rio Ipanema, que dava nome e vida à cidade, cortava o chão pedregoso como uma cicatriz antiga — ora cheio e impetuoso nas raras chuvas, ora seco e manso a maior parte do ano, transformado num rio de areia grossa.

                Mas mesmo quando o leito se esvaziava, o povo não perdia a esperança. Cavavam cacimbas na areia, e delas brotava uma água salobra, meio doce, meio amarga, que matava a sede dos homens, das cabras e do gado. Era dessa água que vivia Cândido — ou Candinho, como todos o chamavam.

                Candinho era um jovem miúdo, de corpo enxuto e braços fortes, descendente de africanos, mas já com o sangue misturado às muitas cores do Brasil. Tinha um olhar esperto e um sorriso que aparecia fácil, mesmo quando o trabalho apertava.

                Logo ao nascer do dia, o povo de Santana já sabia o som que se aproximava: o bater compassado das patas do jumento e o tinir das ancorotas balançando na cangalha. Candinho vinha, firme, enfrentando o sol e as ladeiras da cidade, levando nos ombros e no lombo do bicho o que mais valia por aquelas bandas — água.

                Sobre o jumento, equilibrava quatro ancorotas — cada uma com uns vinte litros da água cavada do fundo do rio. Ia de porta em porta, cumprimentando as famílias, enchendo potes e quartinhas, garantindo ao povo o conforto que só quem podia pagar tinha.

                — Água boa da cacimba, dona Mocinha! Fresquinha, tirada hoje cedo! — anunciava com a voz alegre, enquanto despejava o líquido no pote de barro.

                As mulheres sorriam, os meninos olhavam curiosos, e Candinho seguia viagem, subindo e descendo as ladeiras, o suor se misturando à poeira.

                Era desse ofício simples que tirava o sustento — da força dos braços e da esperteza de transformar o que a natureza dava em trabalho e dignidade. O Rio Ipanema podia secar, virar areia e pedra, mas Candinho sabia como fazer dele um amigo, um parceiro.

                E assim, enquanto o tempo passava e o sertão continuava seu ciclo de seca e esperança, o povo de Santana lembrava de Candinho — o rapaz pequeno e forte que fazia o rio correr de novo, um pote de cada vez.

 

Candinho e o Verão Sem Fim

 

                O verão daquele ano chegou mais cedo e prometia não ter fim. O sol de Santana do Ipanema parecia ter se zangado com o mundo. O chão rachava, o capim sumia, e até as pedras do rio pareciam arder. As cacimbas, antes cheias de promessa, começaram a minguar.

                Candinho, acostumado com a dureza do sertão, sentiu no peito o peso do tempo. Todo dia ele descia com o jumento até o leito seco do Ipanema, cavava a areia com as próprias mãos, esperando que a água brotasse como sempre. Mas agora, a água vinha fraca, teimosa, suja de barro.

                Mesmo assim, ele não desistia. — “Nem o sol manda mais do que a vontade do homem”, dizia pra si mesmo, enquanto o suor lhe corria pelo rosto.

                Numa dessas idas, encontrou Marta, moça nova que viera de Poço das Trincheiras com a família, fugindo da fome. Tinha os olhos fundos, o cabelo preso num lenço gasto e as mãos cheias de calo de tanto ralar mandioca. Ela também tirava água das cacimbas, mas não pra vender — era pra beber, pra cozinhar, pra manter vivos os irmãos pequenos.

                Candinho se aproximou e, vendo o balde dela vazio, ofereceu:

— Pode pegar um pouco da minha, moça. Ainda dá pra dois potes.

Ela o olhou com desconfiança, mas aceitou.

— Obrigada, moço. A seca tá ruim, né?

— Tá pior que cobra em estrada quente... Mas um dia chove. Sempre chove.

                Daquele dia em diante, Candinho passou a deixar um dos potes pra Marta.

                Os dois se viam quase toda manhã, quando o sol ainda não tinha acordado direito. Conversavam pouco, mas o silêncio entre eles era de quem se entendia sem precisar de palavra.

                Com o tempo, a seca piorou. O povo começou a ir embora pra cidades grandes — Maceió, Recife, até São Paulo. E Candinho, vendo o jumento emagrecer e as cacimbas virarem poeira, pensou que talvez fosse hora de seguir o mesmo caminho.

                Mas então, numa tarde abafada, enquanto se despedia do rio morto, sentiu o primeiro pingo cair. Um pingo só, quente como lágrima. Depois outro, e mais outro. E logo o céu inteiro se abriu num choro largo, como se o sertão todo desabasse em alegria.

                Candinho riu, ergueu os braços e gritou o nome de Marta. Ela veio correndo, os pés descalços atolando na lama nova. O rio voltava a ser rio. As cacimbas se enchiam. E ali, debaixo da chuva, os dois se abraçaram, cheirando a barro, suor e esperança.

                Daquele dia em diante, Candinho já não levava água sozinho.

                Marta ia com ele, montada no jumento, ajudando a encher as ancorotas. E assim, entre o sol e a chuva, o sertão e a vida, eles seguiram.

                Porque no sertão, o amor também é resistência — e até o rio de areia sabe voltar a correr quando o coração tem fé. 

quinta-feira, novembro 06, 2025

O DESPERTAR DE AMÁLIA

 

             Amália morava na mesma cidade que Pérola e Joaquina. Era uma mulher alta, de semblante firme, sempre com os longos cabelos presos num coque no meio da cabeça — um coque que parecia parte de sua própria identidade. Casada com Kleos, um homem magro e curvado por um problema na coluna, levava uma vida simples, mas cheia de pequenos rituais e observações.

            A casa de Amália refletia muito de sua personalidade: prática, mas cheia de detalhes. Dois espaços eram seus preferidos. O primeiro ficava logo na frente, na área externa, onde uma cadeira de ferro coberta por almofadas era seu trono diário. Ali, com um cigarro Hollywood entre os dedos e o olhar atento, Amália observava a vida passar. Cada vizinho, cada passo, cada conversa atravessada na rua — nada lhe escapava. Pérola e Joaquina, por exemplo, sabiam bem quando ela estava ali: bastava ver a pontinha do cigarro aceso e o fio de fumaça que se perdia no ar.

            O outro espaço era a cozinha — o coração de sua casa. Era dividida por uma mureta que formava um balcão. De um lado, a mesa cercada por tamboretes de madeira, sempre prontos para uma boa prosa ou um café forte. Do outro, o fogão, a pia e a geladeira, alinhados sob o olhar severo de Amália. No canto, um tripé de ferro em forma de torre sustentava as panelas, penduradas pelos cabos como troféus de uma dona de casa meticulosa.

            Nos fundos, havia ainda um espaço estreito e comprido, que Amália chamava de quintal. Era ali que criava suas galinhas, orgulho e companhia de todas as manhãs. Antes de recolher os ovos, porém, havia um ritual que ninguém na vizinhança ignorava. Às cinco horas em ponto, o silêncio do bairro era quebrado por uma sequência bem conhecida: primeiro uma tosse seca, depois o som de Amélia assoando o nariz com força, e por fim o arrastar metálico de uma pá de Flandres raspando o chão.

            Era o barulho característico de seu amanhecer — o som que avisava a todos que o dia havia começado, e que Amália, firme e pontual como sempre, já estava de pé.

 Amigas e Rivais

             Naquela rua tranquila, o dia só começava de fato depois que Amália terminava seu ritual no quintal. O som da pá arrastando pelo chão era quase como o toque de um sino: as vizinhas sabiam que ela já estava acordada e, em pouco tempo, o cheiro de café e cigarro se misturaria ao ar fresco da manhã.

            Pérola era sempre a primeira a passar pela calçada, a caminho do armazém. Pequena, de passos rápidos, carregava a bolsa de pano encostada ao corpo como quem protege um segredo. Cumprimentava Amália com um aceno breve — nem sempre um sorriso acompanhava o gesto. Joaquina, por sua vez, vinha mais tarde, às vezes com o avental ainda sujo de linha e tecido, pois costurava para dentro e para fora. Gostava de parar na frente da casa de Amália e puxar conversa, mas o tom nem sempre era amistoso.

 — Dormiu bem, Amália? — perguntava, com aquela voz arrastada e olhar curioso.

— Quando o vento não leva a fumaça pro quarto, durmo sim — respondia Amália, soltando uma baforada e cruzando as pernas na cadeira de ferro.

            Nos dias bons, as três sentavam juntas, à tardinha, perto do portão de Amélia, para falar da vida alheia, comentar o preço dos mantimentos e relembrar tempos antigos. Riam alto, como se fossem irmãs de uma mesma sorte. Amália oferecia café, Joaquina trazia bolo, e Pérola — a mais comedida — cuidava de ouvir e observar.

            Mas bastava um comentário atravessado para que a harmonia se desfizesse. Às vezes era uma palavra mal colocada, um rumor trazido pelo vento, uma suspeita qualquer. Houve um dia, por exemplo, em que Pérola comentou que as galinhas de Amália andavam botando menos ovos. Disse isso rindo, mas a frase caiu mal.

— Menos ovos, Pérola? As tuas galinhas nem chegam a botar, e quer falar das minhas? — retrucou Amália, com os olhos faiscando.

            O silêncio que se seguiu foi pesado, como o calor da tarde. Joaquina tentou mudar de assunto, mas Amália já tinha se levantado e ido pra cozinha, deixando as duas sozinhas na calçada.

            Mesmo assim, nenhuma delas conseguia ficar muito tempo brigada. Dias depois, lá estavam novamente, conversando como se nada tivesse acontecido. Eram amigas quando lhes convinha, rivais quando o orgulho apertava — mas dependiam umas das outras. A solidão da rua, o costume dos anos, e aquela curiosidade mútua mantinham o laço sempre vivo, ainda que torto.

            E, no fundo, cada uma sabia que, se uma deixasse de aparecer por muito tempo, as outras sentiriam falta — ainda que jamais admitissem.

 

O Boato

 

            Certo dia, o sossego da rua foi quebrado por algo mais que o barulho da pá de Flandres. Começou com um murmúrio na venda de seu Leônidas, passou pela barbearia e terminou no portão da casa de Amália: diziam que Kleos andava passando tempo demais na porta de Joaquina.

            Ninguém sabia ao certo quem espalhara o comentário — mas todos sabiam quem o alimentava. Pérola, com seu jeito de quem apenas “repete o que ouviu”, foi quem deixou a primeira insinuação escapar.

— Engraçado… toda vez que passo, o Kleos tá por lá, perto da janela da Joaquina. Deve ser coincidência — dissera, com a voz mansa, diante de duas vizinhas curiosas.

            Mas em cidade pequena, coincidência é palavra que não dura uma tarde.

            Quando o rumor chegou aos ouvidos de Amália, ela estava justamente na cozinha, limpando o fogão. Parou o pano no meio do movimento e ficou em silêncio por um instante. Depois tragou o cigarro com força e murmurou:

— Eu sabia que aquele homem ainda ia me dar aborrecimento.

            Naquela noite, Kleos entrou em casa encurvado como sempre, sem notar a tensão no ar. Amália o esperava sentada na mesa, o rosto meio escondido pela fumaça do cigarro.

— Andou na rua da Joaquina hoje? — perguntou, com voz firme.

— Passei, sim. Tava voltando do açougue. Por quê?

— Porque tão dizendo que tu anda visitando a costureira mais do que devia.

            Kleos ergueu as sobrancelhas, assustado, e soltou uma risada curta.

— Ah, Amália… a língua do povo não tem freio. Só parei lá um minuto pra ver se ela tinha linha de bordado, que tu me pediu semana passada.

            Amália não respondeu. Levantou-se, bateu a cinza do cigarro na pia e foi pro quintal. Lá fora, as galinhas dormiam empoleiradas, e o silêncio da madrugada parecia segurar o fôlego.

            Nos dias seguintes, o clima entre as três vizinhas ficou denso. Pérola fingia não entender o motivo do mal-estar, enquanto Joaquina tentava explicar, com sua voz doce, que não havia maldade alguma.

— Ele só me perguntou da linha mesmo, Amália. Nem entrou — disse, parada na cerca. — Tu sabe que eu nunca me meti em assunto de casal.

            Amália olhou pra ela, séria, o cigarro aceso tremendo levemente entre os dedos.

— Eu sei, Joaquina… mas também sei que nem tudo que a gente jura é o que acontece.

            Joaquina baixou o olhar e deu um passo pra trás. Foi a primeira vez, em muitos anos, que o portão de Amália se manteve fechado o dia inteiro.

            Ainda assim, quando amanheceu, às cinco horas, o barulho metálico da pá voltou a ecoar pela rua. E, de dentro de suas casas, Pérola e Joaquina sabiam: Amália podia estar magoada, mas nunca deixaria de marcar presença — nem de avisar, com aquele som áspero, que continuava ali, firme como sempre.

quarta-feira, novembro 05, 2025

PÉROLA E O SILÊNCIO DAS TECLAS

               Santana do Ipanema, era um nome distante demais para a origem de Pérola, mas foi ali que o destino a pousou como folha levada pelo vento. Professora de datilografia, moça de idade avançada e de gestos medidos, Pérola era conhecida por sua voz calma e por seu olhar que parecia sempre mirar um tempo que não voltava mais. Solteira, diziam que nunca vira um homem em seu leito — expressão que o povo repetia mais por malícia que por verdade, pois dela só se sabia o que o silêncio permitia.

            A irmã, Joaquina, era de outro feitio. Risonha, costurava “para dentro e para fora”, como se dizia, para ajudar o marido Carlos, dono de um bar que vendia pinga de procedência duvidosa e doces para as crianças — pirulito e ximbra, que grudavam nos dedos e nos dentes. A casa deles cheirava a álcool, tecido e açúcar queimado. E, mesmo na pobreza, havia um movimento de vida que a casa de Pérola nunca teve.

            Pérola e Carlos vinham de longe. Quando ainda eram crianças, foram trazidos num balaio de couro, amarrado em caçoar sobre os lombos dos burros, junto de um grupo de retirantes que deixava a Bahia em busca de sustento no interior de Alagoas. Não sabiam o que era destino, apenas fome e poeira.

            Foi nessa travessia que conheceram Seu Marinarius, homem de posses e fala arrastada, dono da bodega mais movimentada do lugarejo. Ele comprou Carlos — não por maldade, mas por costume da época — para que ajudasse na arrumação dos sacos de farinha e na limpeza do armazém. Carlos cresceu forte e sagaz, aprendeu a lidar com gente, a medir a pinga e a pesar o feijão. Com o tempo, juntou uns trocados e abriu o próprio estabelecimento, herdando o nome e o jeito de falar do patrão.

            Pérola teve outro destino. Foi acolhida por um pastor da Assembleia de Deus, homem pequeno e adiposo, que viu nela um brilho manso e uma inteligência que pedia livro. Sob sua tutela, aprendeu a ler, a escrever e a datilografar — arte que, na época, parecia coisa de cidade grande. Tornou-se professora. Dizia o pastor que o Senhor a havia escolhido para ensinar “com os dedos o que o coração não sabia dizer”.

            Mas havia, em Pérola, um peso que as orações não tiravam. Nas tardes em que a luz atravessava as janelas da escola, ela se deixava embalar pelo som das teclas: tac-tac-tac, como se cada batida fosse uma lembrança de estrada, de chuva e de perda. Não havia ninguém que conhecesse suas cartas — as que nunca foram enviadas. Guardava-as em uma caixa de sapatos, com fitas amarelecidas e o cheiro de lavanda barata.

            De Joaquina, recebia visitas aos domingos. Joaquina falava muito, ria alto, contava as fofocas do bairro e reclamava do marido, mas sempre levava um pedaço de bolo ou um frasco de doce de leite. Pérola ouvia tudo, sorria pouco. Às vezes, deixava escapar uma lágrima breve, sem saber se era saudade ou solidão.

            Um dia, Carlos morreu — de uma cirrose que vinha se cozendo há anos, discreta como o hábito de beber escondido. O bar fechou, e Joaquina passou a costurar sozinha, sem canto nem conversa. Pérola foi quem lhe segurou a mão no velório, sem dizer palavra. Naquela noite, voltou para casa e ficou horas diante da máquina de datilografia. Escreveu uma carta longa, endereçada a ninguém, contando toda a história — o balaio, o pastor, as teclas, o silêncio.

No final, assinou:

“Pérola — professora de datilografia, filha do vento e da poeira.”

 Dobrou a carta, guardou-a na caixa de sapatos, e nunca mais escreveu outra.

 A Última Carta de Pérola

            Depois da morte de Carlos, o bar virou um lugar de sombra. As prateleiras vazias ainda guardavam o cheiro de aguardente e das risadas que um dia preencheram as noites do bairro. Joaquina tentava seguir, costurando mais do que nunca — roupa de defunto, de batizado, de noiva — e tudo com a mesma linha, que parecia amarrar a vida e a morte com o mesmo nó.

            Pérola passou a visitá-la com mais frequência. Levava pão de milho, cadernos velhos, palavras que pouco confortavam. Às vezes, apenas sentavam-se na varanda, uma costurando, a outra datilografando bilhetes que ninguém leria. As teclas da máquina misturavam-se ao som do pedal da máquina de costura — tac-tac-tac, tchic-tchic-tchic — como se a casa inteira pulsasse num compasso de lembrança.

            Com o tempo, Joaquina começou a adoecer. Um cansaço que não se via, mas que pesava nos ombros. Os olhos ficaram fundos, a respiração curta. Pérola, que conhecia o som do fim desde menina, percebeu antes dos médicos. Passou a dormir em sua casa, cuidando da amiga como quem borda o último ponto de uma colcha antiga.

            Numa noite de abril, quando o vento do rio vinha frio dos lados do Ipanema, Joaquina chamou Pérola com voz quase de menina:

— Péro… você ainda escreve suas cartas?

Pérola sorriu, triste:

— Escrevo, mas já não mando pra ninguém.

— Pois então escreve uma pra mim — disse Joaquina. — Uma carta que conte que eu fui feliz, mesmo costurando pra dentro e pra fora. Que Carlos me amou do jeito dele, e que eu nunca deixei de rir.

            Pérola prometeu. E naquela madrugada, enquanto Joaquina dormia o sono mais quieto de todos, a professora datilografou sua última carta. Não era para Deus, nem para o passado. Era para a amiga. Dizia assim:

“Minha amiga Joaquina partiu como se apagasse uma vela acesa em dia de vento.

Deixou o cheiro de tecido novo e de pão quente, o barulho do pedal e do riso.

Foi mulher inteira num tempo que pedia metades.

E eu, Pérola, que nunca soube amar senão pelas teclas, aprendi com ela que o amor também é remendo: discreto, mas forte.

Que a solidão pode ser uma prece, e que rir é uma forma de resistir.”

            Quando terminou, guardou a folha dobrada dentro do bolso do vestido de Joaquina. Depois, fechou a janela, apagou a luz e ficou escutando o vento.

            No dia seguinte, a notícia se espalhou devagar, como tudo naquela cidade.

            Disseram que Pérola se mudou para distante, que abriu uma pequena escola de datilografia para moças pobres, que ensinava mais sobre vida do que sobre letras. Outros diziam que morreu sozinha, cercada por máquinas antigas e cartas sem destino.

            Mas quem passava pela rua da escola à noite jurava ouvir, misturado ao vento, o som ritmado de duas máquinas — uma de costura, outra de escrever — conversando baixinho no escuro.

             E era assim que Joaquina e Pérola continuavam vivas: no som das teclas e dos pontos.

quinta-feira, abril 10, 2008

CURSO PARA FORMAÇÃO DE PROFESSORES "Educação para Diversidade Africanidades"


Professor Morche Ricardo Almeida


Durante a "III Formação Pedagógica do Ensino Fundamental e Pré-Escolar das Unidades Escolares", neste primeiro semestre do ano de 2008, promovido pela Secretaria de Educação de Blumenau, SC, os professores da rede municipal de ensino, Professor Morche Ricardo Almeida, professor de História; Professor Ivo de Farias, professor de Geografia; e o Professor Ramides Pessati, professor de História, ministraram curso para formação de professores a convite da SEMED. Optaram os palestrantes pela temática "Educação para Diversidade Africanidades".

Os participantes foram 70 professores e professoras de diversas áreas, da rede municipal de ensino do município. E os educadores Morche Ricardo Almeida, Ivo de Farias e Ramides Pessati, que em 2007 tomaram parte na "I Formação Pedagógica do Ensino Fundamental e Pré-Escolar das Unidades Escolares", desta vez, apresentaram, dentro da temática a que se propuseram (Educação para Diversidade Africanidades), as mudanças na lei federal 9.394/96, a LDB, e, conseqüentemente, as leis 10.639/03 e 11.645/08. Legislação educacional que aponta novas mudanças e obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena. Os diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir de seus grupos étnicos.

Com a formação de professores, na SEMED, ministrada pelos experientes educadores Morche Ricardo Almeida, Ivo de Farias e Ramides Pessati, os 70 participantes conheceram as mudanças nos aspectos legais da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei 9.394/96) e suas mudanças nos artigos 26 e 79, que passaram a ser acrescidos dos artigos 26-A e 79-A (79-B foi vetado, na lei 10.639/03, que criou a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira nos currículos do ensino fundamental e médio de escolas públicas e particulares) e a lei federal 11.645/08 que institui às escolas do ensino médio a obrigatoriedade também da temática História e Cultura Indígena. E, a partir deste ano, a LDB normatizou a obrigatoriedade às escolas o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.

quarta-feira, abril 09, 2008

QUAIS AS MUDANÇAS EM SALA DE AULA COM AS LEIS 9.394/96, 10.630/03 e 11.645/08?

Formação de professores abril 2008 - SEMED Blumenau - Professor Morche Ricardo
Almeida, falando sobre o preconceito racial no caso brasileiro que está focado nas questões moral, intelectual e estética.


MORCHE RICARDO ALMEIDA


SE ANTES A LDB SUGERIA, AGORA HÁ OBRIGATORIEDADE POR FORÇA DE LEI FEDERAL.


Primeiro, veio a LDB (lei 9.394/96) que norteia, em 1996, quais as diretrizes e bases da educação nacional. Para alterar alguns artigos na LDB, a exemplo de outras mudanças anteriores, surgiu a norma para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", além de outras providências legais. Esta legislação educacional passou a vigorar acrescida dos artigos 26-A, 79-A e 79-B (lei 10.639/03) e isto, em 2003, significou que a LDB foi obrigada a robustecer seu artigo 26 com o artigo 26-A. Este artigo 26, na LDB, trata dos currículos do ensino fundamental e médio que deve ter uma base nacional comum, a ser completada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela. Os currículos a que se refere a parte principal (o caput) deste artigo 26, na LDB, originariamente, devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil. Assinala o mesmo artigo 26 eledebista que o ensino da arte constituirá componente curricular, obrigatório, nos diversos níveis de educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. Além da educação física integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da educação básica, ajustando-se as faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos. O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diversas culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente nas matrizes indígenas, africanas e européias. Na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição.
Observando a origem do artigo 26, na LDB, o que veio a ser acrescentado ao mesmo artigo, agora com outra lei, onde se complementa o artigo 26, na LDB, com o mesmo artigo 26-A, agora, na lei 10.639/03, foi a obrigatoriedade nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Embora os legisladores, na LDB, tenham incluído o ensino da História das matrizes indígenas, africanas e européias (supra assinaladas neste ensaio). O artigo 26-A tornou obrigatório, enquanto o artigo 26, na LDB, o artigo originário, aquele que originou esta mudança, não obrigava, mas sugeria ao escreverem os legisladores eledebistas o verbo "deve" em lugar de tornar obrigatório, conforme normatizou o artigo 26-A, o conteúdo programático a que se refere a História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, seja em escola pública, seja em escola de iniciativa privada. Qualquer uma delas está obrigada por lei federal a incluir em seus currículos (evidentemeente, com professores habilitados às novas legislações) de ensino fundamental e médio, o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nasa áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. Por sua vez, o artigo 79, na LDB, definiu que a União apoiará técnica e financeiramente os sistemas de ensino no provimento da educação intercultural às comunidades indígenas, desenvolvendo programas integrados de ensino e pesquisa. Os programas serão planejados com audiência das comunidades indígenas. E os Planos Nacionais de Educação, incluídos neste artigo 79, terão os objetivos de fortalecerem as práticas sócio-culturais e a língua materna de cada comunidade indígena. manter programas de formação de pessoal especializado, destinado à educação escolar nas comunidades indígenas. Desenvolver currículos e programas específicos, neles incluindo os conteúdos culturais correspondentes às respectivas comunidades. E elaborar e publicar, sistematicamente, material didático específico e diferenciado.
E este mesmo artigo 79, na LDB, ampliado com nova lei, cujo texto se compreende sob a égide do artigo 79-A, pois robustecido com o acrescimo da lei 10.639/03, ampliou a norma para que, agora, o calendário escolar inclua também o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. A saber, esta data vem sendo comemorada desde o século passado. E o mesmo artigo 79, na LDB, que recebeu dois acréscimos. O primeiro, artigo 79-A, do dia Nacional da Consciência Negra, em homenagem ao cantado em versos e prosa Zumbi dos Palmares; o segundo, artigo 79-B, vetado pelo Presidente da República. Após o advento e comentário destas leis federais (9.394/96 a LDB e 10.639/03 que a robustece nos aspectos antes expostos) esta outra lei 11.645/08 também teve o propósito legal em alterar novamente a LDB, modificada pela lei 10.639/03, ou seja, nos artigos 26-A, 79-A e 79-B que, ao estabelecer as diretrizes e bases da educação nacional, inclui a obrigatoriedade no currículo oficial da rede de ensino a temática "História e Cultura Afro-Brasileira", também a indígena. E, assim, o artigo 26-A vigora, hoje, que os estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e privados, tornam-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. Além do mais, o conteúdo programático a que se refere este novo artigo, ou seja, originário da LDB, e duas vezes modificado - em duas leis consecutivas: no ano de 2003 e neste de 2008 - incluiu-se no renovado artigo 26-A, diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a transformação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional. Resgatando as suas contribuições na área social, econômica e política pertinentes à história do Brasil. Além dos conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros, serão ministrados, no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.
Se antes a LDB sugeria o estudo das diferentes culturas e etnias, nos diversos níveis da educação básica, agora a lei diz que é obrigatório tais estudos. E, desde 2003, ampliando-se a legislação educacional neste ano de 2008, todas as escolas são obrigadas a incluírem em seus currículos dos ensinos fundamental e médio o estudo das matrizes indígenas e africanas. Resta saber se o professor tem a habilitação necessária para transmitir tais conhecimentos. Com esta nova realidaede, as secretarias de educação, estaduais e municipais, e as escolas particulares, por sua vez, farão alterações significativas em seus currículos do ensino básico. Considerando ser vasta a literatura a respeito dos temas apresentados.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

LEI N° 3.353 DE 13 DE MAIO DE 1888 - A LEI ÁUREA - 120 ANOS




do ensaísta e professor Morche Ricardo Almeida



Chegamos ao centésimo vigésimo ano depois da assinatura da Lei Áurea. Um ano que poderá ou não abrir novos debates sobre a questão dos negros no Brasil. Seria muito digno que os afro-brasileiros tivessem orgulho em homenagear a Princesa Isabel, e toda corte imperial, em seus desfiles carnavalescos, como fez José do Patrocínio.
Patrocínio adianta-se, emocionadíssimo. Ajoelha-se. Beija as mãos da princesa. As palmas se prolongam. Patrocínio fala. Chama-a “a doce mãe dos cativos” (d’Amaral: 124-5, 2001). Seria edificante se o governo federal houvesse reservado, no orçamento da União, verba extraordinária ao “grande feriado” do 13 de maio. Está claro, no entanto, que nem os afrodescendentes sentem orgulho desta data nem o governo federal disponibilizou verba extraordinária para que a data seja amplamente comemorada.
Promulgada e assinada pela Princesa Isabel, no dia 13 de maio de 1888, traz a lei, n° 3.353, em sua estrutura jurídica, o seguinte:


Lei Áurea (13/05/1888)

“Declara extinta a escravidão no Brasil.

A princesa imperial regente em nome de Sua Majestade o imperador, o senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:

Art. 1º: É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.

Art. 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

Manda, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.
O secretário de Estado dos Negócios d’Agricultura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, publicar e correr.

Dado no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1888, 66º ano da Independência e do Império.
Carta de lei, pela qual Vossa Alteza Imperial manda executar o decreto da Assembléia Geral, que houve por bem sancionar declarando extinta a escravidão no Brasil, como nela se declara.
Para Vossa Alteza Imperial ver.”

O arcabouço jurídico da Lei Áurea foi construído com os tijolos da fragilidade. Sendo a exceção sua eficácia em revogar as outras vãs tentativas em pôr fim à escravidão no Brasil. Os juristas do Império, que redigiram a Lei de Ouro e entregaram-na nas mãos da filha de D. Pedro II, na ausência deste, para assiná-la, desprezaram o porvir e ignoraram o destino dos escravos que, a partir da lei, ficariam livres da escravidão vigente. Eis a fragilidade legal: libertar os escravos e entregá-los ao deus-dará. A Princesa Isabel, filha do Imperador filósofo, outorgou a legislação libertadora do povo estrangeiro e descendentes transformados em mercadoria em nome do trabalho compulsório no seu aspecto mais repugnante. Sem reconhecer a opressão secular que sua Coroa impôs às centenas de famílias do continente africano. Mas, finalmente, a lei de 13 de maio saiu; com suas imperfeições, saiu. Um 13 de maio difícil de ser engolido, por falta de identidade no povo a quem propunha libertar da escravidão, que trocou o 13 de maio por 20 de novembro. Pois havia mais verdade na coragem de Zumbi (assassinado em 20 de novembro de 1695, final do século XVII) se comparada à coragem da Princesa Isabel ao assinar a lei e publicá-la no festivo 13 de maio de 1888, final do século XIX. A pena a serviço dos interesses do Império não tinha forças nem no tinteiro tinta para garantir dignidade aos que deixavam a condição de escravo e, a partir daquele 13 de maio, iria aprender a ser livre, sentir o gostinho da liberdade.
Que liberdade?
Muitos questionamentos foram feitos ao analisar tal lei, pois ela é simples e não trouxe nenhuma vantagem aos que, até 1888, serviram de base na construção econômica, social e cultural do Brasil. O valor que se deu ao africano seqüestrado de sua terra natal, e mesmo ao nascido no Brasil, é o mesmo valor garantido pela lei n° 3.353 de 13 de maio de 1888, mais conhecida como Lei Áurea.
Os cento e vinte anos passados desde a assinatura de tal lei não trouxeram aos afrodescendentes os privilégios da liberdade. Tiveram os negros que saírem dos seus locais de nascimento ou de onde trabalhavam, em busca de um espaço onde garantissem sua sobrevivência. Não bastasse a falta de apoio do governo, ainda tiveram que enfrentar a concorrência para conseguir trabalho, concorrência desleal. Pois os que se apresentavam para trabalhar nas indústrias que estavam surgindo no Brasil eram europeus vindo de regiões onde a indústria já estava consolidada e conheciam o trabalho com máquinas. Os afrodescendentes, agora livres das correntes e das senzalas, não estavam livres da mendicância, da péssima moradia e da disputa por espaço. Saíram da lavoura da cana-de-açúcar, do café, das minas de ouro. Como concorrer com o proletariado europeu que chegava aos milhares na terra sem escravidão? Mão-de-obra patrocinada pelo governo imperial.
Poderiam os ex-escravos terem garantido o direito a uma indenização por trabalhos forçados, seqüestro, humilhações e tantas outras questões quantas fossem citadas devido aos mais de 300 anos que serviram ao governo português e brasileiro, após sua Independência em 07 de setembro de 1822? Poderiam. No entanto, em uma manobra traiçoeira, como sempre fizeram os dirigentes políticos do Brasil, na pessoa de Rui Barbosa, preferiu transformar em fumaça a história dos povos africanos e afro-brasileiros.

E, de novo, um mês depois, no dia 14 de dezembro de 1890, quando Rui Barbosa quis pôr um fim nas pressões "indenizistas", simplesmente mandando queimar as provas de propriedade existentes no Ministério da Fazenda, o presidente da Confederação Abolicionista, João Clapp, será citado no próprio texto da Decisão Ministerial como membro principal da comissão encarregada dos trabalhos de "queima e destruição imediata" dos documentos (SILVA).


Rui Barbosa, abolicionista. A Águia de Haia. O ilustre representante do Brasil em Haia, Holanda, na Segunda Conferência da Paz, que tinha como objetivo estabelecer os novos fundamentos da ordem internacional. Este mesmo Rui Barbosa não pensou duas vezes ao ordenar a queima de documentos históricos do Brasil.
Documentos que garantiriam ao povo negro o reconhecimento de seu trabalho quem sabe até alguma indenização por tudo que acontecera.
A abolição da escravatura, já avançara consideravelmente no Brasil, em várias regiões, antes mesmo do dia 13 de maio de 1888. A princesa Isabel assinou um documento que libertou os escravos de alguns senhores resistentes às lutas abolicionistas.
Os afrodescendentes continuaram à luta. Essa nova luta não deixou de ser desigual como havia sido durante todo o período de escravidão. Ser livre, mas não ser considerado cidadão. Ser o negro, o analfabeto, o desempregado, o sem teto, o sem terra. Continuavam os afro-brasileiros às margens da sociedade dominante, agrícola e industrial do início do século XX.
Esses quase 500 anos da presença do negro, no Brasil, foi apagado com a atitude dos subordinados a Rui Barbosa, o “abolicionista”. A história oral e alguns documentos e utensílios que sobreviveram a esta infâmia permitiram que um quebra-cabeça fosse sendo montado com muita dificuldade, pois muitas peças tiveram e tem que serem reconstruídas apenas do imaginário, e outras ainda estão escondidos por alguns que insistem em brincar de esconde-esconde com a história do Brasil.
Neste resgate histórico, onde a figura principal é o africano e seus descendentes, encontramos nomes ilustres que foram e são responsáveis pela construção da cultura geral do Brasil. É mister que nem todos se destacam nacional ou internacionalmente. Indiferente de sua origem étnica, todos são responsáveis pela construção da história; mas, os que vêem seus nomes transformados em exemplos para os outros, são poucos.
No início da história colonial brasileira, surge entre tantos negros africanos ou afrodescendentes, um que tem seu nome como maior símbolo de luta e resistência contra o sistema de coisas que vivenciava juntamente com seus contemporâneos. Foi Zumbi que se tornou o nome maior da luta negra contra a escravidão. Não se pretende analisar a história de Zumbi, mas apenas para registrar, por que Zumbi? Zumbi foi mais um líder do quilombo de Palmares. E os outros líderes quilombolas? Não tiveram eles também o poder de representar a luta contra a opressão dos seus algozes?
Representa no Nordeste açucareiro, Zumbi, a luta do povo humilhado e desrespeitado em seu direito mais fundamental: a liberdade. Os negros têm seu herói, e a luta dele (Zumbi) em um período onde “a Coroa, insistia em justificar a escravidão incluindo o negro na categoria de coisa ou de bicho”. (Oliveira, p.20, 1999). Significa para a sociedade de hoje que, na luta por direitos, não pode retroceder em qualquer situação.
Em outro momento histórico, encontramos Chica da Silva, mulher negra que, segundo historiadores, esteve à frente de sua época. Seu exemplo reflete o poder da mulher na luta contra a situação em que a mesma foi colocada em uma sociedade machista e escravagista. Não são poucas as heroínas negras nestes 500 anos.
Nomes de negros que ajudaram a construir a história do Brasil não são poucos. Ainda no período colonial brasileiro, encontra-se, nascido na primeira metade do século XVIII, e que se destaca no plano artístico, Francisco da Costa Lisboa, o Aleijadinho. O tempo fez surgir outros milhares de nomes ilustres de afrodescendentes citados por Nelson Silva de Oliveira em sua obra “Vultos Negros na História do Brasil”: Francisco Manoel das Chagas, o escultor, Crispim de Amaral, José Teófilo de Jesus, Estevão Roberto Silva, Joaquim Pinto de Oliveira Thebas, José da Paixão, Gabriel Joaquim dos Santos, Agnaldo Manoel dos Santos, Valentim da Fonseca e Silva, Mestre Valentim e tantos outros.
Na política, arquitetura, esportes, educação, música, teatro, literatura, medicina e nas mais diferentes áreas do conhecimento encontram-se os afro-brasileiros. Lutam, e ainda continuam lutando, como lutou o primeiro que se lançou ao mar para fugir na travessia do Atlântico. Também os que se embrenharam nas matas desconhecidas para fundarem quilombos de resistência, os que sicretizaram santos católicos aos orixás para manterem presente sua religiosidade. Neste capítulo, os que escreveram denúncias de um país que nunca respeitou seus filhos, a exemplo do escritor Lima Barreto, nos livros Os Bruzundangas, o Triste fim de Policarpo Quaresma e tantos outros títulos. A força dos negros é a mesma força de Zumbi, desde que o primeiro navio negreiro aportou em terras da colônia portuguesa, passando por todo período colonial, imperial e republicano.
Dizer que vivem-se 120 anos de “liberdade” é ser um inocente útil. A escravidão perdeu o pavor, mas permanece à memória. Esta memória continua ditando as regras das relações étnicas no Brasil. Espera-se, em breve, poder viver em um país multiétnico em que haja solidariedade.

REFERÊNCIAS

BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. São Paulo: Ática, 2002. (Série Bom Livro)

______________. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ática, 1995. (Série Bom Livro)

BONAVIDES, Paulo & VIEIRA, R. A. Amaral. Textos políticos da história do Brasil. Fortaleza: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, s/d, p. 788 In: CALDEIRA, Jorge e outros. CD-ROM Viagem pela História do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

d`AMARAL, Márcio Tavares. Rui Barbosa. São Paulo: Editora Três Ltda, 2001. (A vida dos grandes brasileiros – 1)

OLIVEIRA, Nelson Silva de. Vultos negros na história do Brasil. Rio de Janeiro: CEAP. 1999

quarta-feira, dezembro 26, 2007

A HISTÓRIA DO ALUNO ANGOLAH

Trabalho feito nas aulas de Artes para o
Projeto África - 2007 - EBM Machado de Assis - Blumenau - SC



Morche Ricardo Almeida

Pela calçada alegre vem
o garoto pra sua escola.
Veio do multiculturalismo
de outros povos étnicos
pra diversidade do Brasil
em matrizes e gêneros.

O aluno Angolah
nasceu na África;
imigrou pro Brasil;
visitou São Paulo;
morou no interior;
conheceu o Rio;
brincou carnaval.

Tomou banho de mar.
Andou muito a cavalo.
Que amigo é Angolah!

Angolah!
Angolah!
Angolah!

Fale de seu pai, Angolah.
Ele é um grande músico
e professor de Matemática;
um estudioso das estrelas.
Conhece as estrelas do céu,
conhece as estrelas do mar.

O aluno Angolah
primeiro dia dele
na nova escola:
desenhou os pais
como lhe pediu
a sua professora.
Depois do desenho,
contou histórias

da África
os mitos,
as crenças.

O aluno Angolah
fez muitos amigos,
jogou muita bola,
pulou muita corda,
girou no balanço,
como gira o mundo
sem parar Angolah
e sem descanso.

E Angolah caiu
e chorou muito.

Sossegou de brincar.

Teve medo Angolah
dos desconhecidos;
um amigo o encorajou:

- Que é isso, Angolah?
Deixa disso, deixa disso!

Angolah!
Angolah!
Angolah!

Conte mais histórias;
vem. Quem corre mais,
Angolah, atrás da bola?
Angolah!
Angolah!
Angolah!

Como deve ser a África?
Uma colcha de retalhos
rasgada por europeus,
costurada por africanos.

Veio do continente africano
dos seus muitos países;
Angolah filho de angolanos.

O Brasil sentiu frio,
numa noite de trovões;
a escola descobriu
quem ajudaria o Brasil
a não sofrer tanto frio;
foi a colcha de retalhos
do menino africano
quem cobriu o Brasil.

Todos da escola,
na Serra dos Almeidas,
foram conhecer
a família de Angolah.

Os pais trabalhadores
foram convidados,
e passaram a morar
na Serra dos Almeidas,
onde o Sol brilha,
jardins explodem flores,
os pássaros burilam.

Venha ver, Angolah!
ontem, tinham jasmins;
hoje, orquídeas, rosas,
uns lírios e margaridas.
Lugar mágico de flores.
A Serra dos Almeidas
é a terra dos tambores.

Era a serra mais alta;
uma boa serra dessas
pra se estudar estrelas.

- Quem é sua mãe, Angolah?

Minha mãe é Luanda,
de tranças no cabelo,
encantadora mulher;
e o meu pai é Zimbábue.

Era o professor Zimbábue
quem falava de suas mães,
de experiências passadas;
e tinha um samba no pé.
Dizia enxergar o mundo
da cacunda de seus pais;
falava quibebe e bumbar,
às vezes, ficava zangado,
gritava: Sai, daí, moleque!
No caçula fazia cafuné;
pegava um bom molambo
e, com esse seu pano,
ele lustrava o seu carro;
pedia ajuda a Angolah;
falava com seus orixás;
gostava de comer acarajé.
E Luanda preferia maxixe;
a família gostava mesmo
das liturgias do candomblé.

Eu também sou América,
costumava dizer Angolah,
e, no Brasil, seus amigos
lhe pediam um abração,
do tamanho da amizade:

- Amigo, Angolah, como é a África?
Deslumbravam-se os seus colegas.

E Angolah desabava a falar
das montanhas e dos vales,
das florestas e dos animais,
de suas religiões africanas;
e de suas inúmeras riquezas,
e do petróleo e das ciências,
do ouro, da prata, do diamante,
e da evolução da consciência.

- O que é kizomba, Angolah?

- Essa é nossa palavra africana;
significa encontro de identidades
ou festa das confraternizações.

Angolah falou palavras novas,
traduziu poemas e poetas
e inúmeras cantigas de ninar.
Esta é a história de Angolah.

quarta-feira, novembro 07, 2007

DO ESCRAVO FORTUNATO À LEI TRABALHISTA NA POESIA DE MARCELLO RICARDO ALMEIDA

Capitão-do-mato. Rugendas, BMSP.



do ensaísta Morche Ricardo Almeida


Em quase todos os livros de História, ao abordar a resistência pós-abolição, cita um classificado de jornal publicado em meados do século XIX, na ex-capital da colônia portuguesa na América do Sul. Ocupou este status o Rio de Janeiro até 1822, quando a colônia separou-se de Portugal, após o grito de independência às margens do Ipiranga paulista, nas tintas do artista plástico catarinense Victor Meirelles. A partir do 7 de setembro de 1822, passou o Rio de Janeiro a ser capital do Brasil até 1960, quando a capital foi transferida para Brasília, GO. Trata-se o aludido classificado da caça ao escravo dito Fortunato Lopes da Silva.
Este texto da tipografia Universal, de Laemmert, na rua dos Inválidos, no Rio de Janeiro (ipsis litteris):

“Anda fugido, desde o dia 18 de outubro de 1854, o escravo crioulo de nome Fortunato. De vinte e tantos anos de idade, com falta de dentes na frente, com pouca ou nenhuma barba, baixo, reforçado e picado de bexigas que teve a poucos annos. É muito pachola. Mal encarado. Falla apressado e com a boca cheia, olhando para o chão; costuma, às vezes, andar calçado, intitulando-se forro e dizendo chamar-se Fortunato Lopes da Silva. Sabe cozinhar, trabalhar de encanador, e entende de plantações de roça, donde é natural. Quem o prender, entregar à prisão, e avisar na corte ao seu senhor, Eduardo Laemmert, rua da Quitanda, 77. Receberá 50U000 de gratificação”.

Desde o século próximo passado, ano de 1971, criou-se o Dia da Consciência Negra, homenagem a 20 de novembro e não 13 de maio. Porque 20 de novembro (1695) representa a preservação da luta do guerreiro Zumbi dos Palmares e não mais 13 de maio, quando a princesa Isabel, na ausência do pai, D. Pedro II, assinara a Lei Áurea (1888). Esta mudança de datas, em lembrança à morte de Zumbi e não o fim oficial da escravidão no Brasil, quer representar a reivindicação de todos os brasileiros afros-descendentes cuja ascendência consangüínea está presente em povos, reinos e civilizações do vasto, rico, colorido e artístico continente africano.
Nas primeiras décadas do século XX, falava-se nas academias de Ciências Naturais a respeito do AUSTRALOPITHECUS AFRICANUS. Este, segundo o paleontologista sul-africano Raymoud Dart (1925) o descobrira em suas pesquisas, datava-se ter vivido há três milhões de anos.
Foram descendentes dos australopithecus africanus que originaram a civilização egípcia, o reino da Núbia, os reinos de Kush, de Axum, os impérios de Ghana, de Mali, do Songai, do Congo. E, depois, transformados em mercadorias e direcionados ao trabalho compulsório em outros continentes. Levados em navios negreiros como escravos para a América portuguesa (para situar-se neste aspecto brasilis) e ser caçado a exemplo de inúmeros casos semelhantes ao escravo dito Fortunato Lopes da Silva, cujo classificado de jornal, em 1854, na imprensa fluminense, publicara. Sob este aspecto histórico, o poeta Marcello Ricardo Almeida, in Anúncio de Classificado (UMA TEORIA DO PARADOXO, 1999:100) construíra uma ponte de juspoesia ou poético-jurídica do Caso Fortunato aos casos do artigo 482, da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). Legislação na qual “se o empregado que falta ao trabalho não voltar no prazo 482, da CLT, receberá sua rescisão por justa causa”. Escreveu o jurista poeta sua juspoesia:

Já quando o prender
entregá-lo à prisão;
mas, antes vá avisar
na corte do senhor
T. Antônio Gonzaga
na rua do Ouvidor.

E receberá 90U000.
É uma gratificação!

Ele anda foragido
desde 9 de agosto.
Um escravo crioulo
de trinta e poucos.
Atarracado, o ataúba,
e picado de bexigas.

E vá receber 90U000
só em gratificação!

Ele é muito pachola
também mal-encarado,
e apressado, o diabo.
Olhar finca no chão,
e costuma, às vezes,
às vezes, ir calçado.

90U000 é muito bom!
só em gratificação.

Olhem trabalhadores
em toneladas e metro!
Redijam, jornalistas,
assim em seu jornal:
“Empregado Tale Qual,
portador de um CTPS,
mais um CIC e o PIS,
escafedera-se por aí,
em data assim assim,
e não mais apareceu.
Se ao emprego não vier
no prazo 482, da CLT,
receberá sua rescisão.
Isso por justa causa”.
A sorte e os azares,
Como manda o manual
de jornal, e a coluna
deste classificado.

Com letras poéticas, o jurista Marcello Ricardo Almeida, substituíra a personalização Fortunato Lopes da Silva, escravo, 1854, por um assalariado de nome sugestivo: Tale Qual. Tale Qual, empregado, procurado por seu patrão, ameaçado de ser mandado embora do emprego, por justa causa, com fundamentação no artigo 482, da CLT. O juspoeta Marcello Ricardo Almeida, nesta relação da norma trabalhista do século XX e o direito a explorar o escravo do século XIX e anterior a este por quase 400 anos de trabalho compulsório imposto a crianças, mulheres gestantes, mulheres com filhos recém-nascidos, amas-secas, homens, velhos com um pé na África e outro na América, mãos e pés do Brasil, questiona os meios para se justificar os fins. O capitalismo escancarado que não pára para questionar por que o escravo fugia ou por que o empregado foge do emprego com riscos de perdê-lo e ficar desempregado.
Quando o anúncio de jornal sobre o Caso Fortunato assinala “com falta de dentes na frente” pode denunciar maus-tratos à causa da perda dos dentes da frente no escravo caçado por meio de tortura. O anúncio não fica neste pormenor. Muitos outros pontos não apenas descreve a personagem fugitiva, mas também aponta possíveis características de alguma patologia, insanidade ou outro desvio “Falla apressado e com a boca cheia, olhando para o chão” e este é um exemplo. Por vários aspectos; um dos pontos a ser observado, se falava apressado, como lhe acusara o classificado de jornal, demonstrava seu espírito aflito e perturbado, ou até louco; um outro que não poderá ser ignorado: se tinha o olhar preso ao chão, este gesto demonstra a submissão, o medo de levar pancada, de ser castigado no pelourinho, o não-deireito em encarar a autoridade, o patrão, o chefe, o seu dono, pois encará-lo poderia lhe custar caro. Vale salientar “andar calçado”, pois só usava calçados quem fosse livre e ao escravo era proibido usar calçados. Fortunato, porém, às vezes, usava calçado. Depois, o artigo faz uma breve lista de seus talentos. O que poetificara Marcello Ricardo Almeida é personalizar Tale Qual com CTPS, CIC e PIS. Quer seja, os tempos mudam, as leis mudam, mudam as nomenclaturas, no entanto, a caça continua.

Olhem trabalhadores
em toneladas e metro!

Marcello Ricardo Almeida ironiza o volume de trabalhadores em “toneladas e metros”. Esta figura de linguagem para denunciar o exército improdutivo e frouxo de desempregados. Entre o anúncio jornalístico do século XIX e o poema do século XX está demonstrada a opressão. Repete-se o desrespeito ao trabalhador. Não se questionam seus motivos; entretanto, persiste a história de sua opressão.







JULHO EM SANTANA: QUANDO A JUVENTUDE VIRAVA FESTA

             Santana do Ipanema sempre foi mais que um ponto no mapa. Foi — e ainda é — um lugar de pertencimento, um chão que cria raízes i...