domingo, novembro 23, 2025

AS LEMBRANÇAS DE MARCELO

 

            Marcelo, filho de José de Deoclécio e Amélia e de Maria de José e Iluminata, cresceu como quem carrega dentro de si um mundo inteiro que ninguém vê. Era uma criança sonhadora, dessas que olham para o céu como se ele fosse um livro cheio de histórias, e para as ruas de terra como se fossem caminhos de aventura esperando apenas o primeiro passo.

            A casa simples, com o cheiro constante de café fresco e o barulho dos passos de Maria pela cozinha, era o primeiro território de sua imaginação. José, com seu jeito sério e ao mesmo tempo atento, sempre encontrava uma forma de chegar até o menino — fosse por um conselho curto, fosse por um olhar que dizia mais do que qualquer palavra.

            Marcelo carregava no bolso pedrinhas brilhantes, pedaços de madeira, cacos de vidro colorido que para ele eram tesouros, relíquias de um mundo que só sua imaginação alcançava. Às vezes, desaparecia pelos quintais vizinhos, seguindo borboletas, procurando ninhos, inventando máquinas impossíveis ou arriscando descobrir onde o vento nascia. Outras vezes ficava sentado no batente da porta, observando a rua como quem lê o tempo.

            Nos dias de festa, quando a música corria solta e a vizinhança parecia respirar mais leve, ele se escondia entre as pernas dos adultos para ver tudo sem ser notado. Gostava do som das conversas, dos risos, dos cheiros de bolo e das histórias contadas como se fossem verdade absoluta. Para Marcelo, cada palavra era uma semente — e no terreno fértil da sua imaginação, tudo brotava.

            Nem sempre entendia o mundo dos adultos, mas percebia a força que havia em seus pais. Maria com a firmeza silenciosa de quem guarda a casa, e José com aquele jeito meio ranzinza, meio carinhoso, que só quem viveu do lado dele sabe decifrar. Marcelo aprendia com os dois: com ela, a ternura; com ele, a resistência.

            O tempo passou, como sempre passa, mas algumas imagens ficaram bordadas na memória: o cheiro de chuva no início da tarde, a poeira subindo na estrada quando alguém passava a cavalo, o ar fresco das manhãs de domingo, e principalmente o sentimento de que o mundo era grande demais para caber num só lugar — sensação típica de meninos que sonham.

            Hoje, quando Marcelo olha para trás, percebe que sua infância foi feita de simplicidades que só ganham valor quando viram lembrança. E é ali, entre a casa antiga, o quintal iluminado pelo sol e a voz de seus pais chamando seu nome, que ele ainda encontra o menino que um dia foi — aquele que via magia onde ninguém mais via, e que aprendia a voar sem tirar os pés do chão.

sábado, novembro 22, 2025

O DIA EM QUE O MAR FINALMENTE CHEGOU

 

            Era quase 1970, e Santana do Ipanema ainda respirava o cheiro forte da terra quente, da poeira fina que colava nos pés e da calmaria típica do sertão. Naquele tempo, o mar era quase uma lenda. Falava-se dele como quem fala de um sonho distante — azul, grande, sem fim. Muitos santanenses nasciam, viviam e morriam sem ver aquele mundo de água que só existia na imaginação.

            Mas, de vez em quando, alguma família se aventurava pela BR-316, uma estrada de chão batido que serpenteava entre o mato ralo, buracos, pedras e coragem. Era preciso fé e disposição para encarar a viagem. Os ônibus até existiam, mas era mais comum ir de carona: político que ia resolver assunto na capital, proprietários de um carro que levavam passageiros para dividir o gasto do combustível, parentes que avisavam parentes… Era quase um ritual sertanejo de movimento.

            E assim aconteceu naquela semana.

            O político da cidade — homem muito elogiado nas feiras e nas calçadas — avisou que iria a Maceió com sua Rural Willys. Bastou a notícia se espalhar para que uma das famílias amigas se animasse. A esposa, que tinha parentes na capital, viu ali a chance de rever gente querida e, quem sabe, mostrar às crianças o tão falado mar. Aquele mar que só existia nos sonhos.

            Acertaram tudo: dia, hora e até o ponto exato da saída. As crianças, tão ansiosas, passaram três noites sem dormir, imaginando ondas enormes, peixes coloridos, areia fina e coisas que só conheciam pelos relatos dos que tinham ido e voltado encantados.

            Na véspera, a mãe improvisou uma mala com um lençol. Dentro dele, colocou as roupas e, como manda a tradição, separou presentes para os parentes: duas galinhas, um peru, queijo coalho, uma mão de milho, meio saco de feijão… Coisas que tinham mais valor sentimental que financeiro.

            Antes mesmo de o sol pintar o céu de vermelho por trás da serra, a família já estava sentada à porta do político. O pai, que não viajaria, ficou ali acompanhando um pedaço da madrugada, fumando os vinte cigarros da carteira de Continental como quem queima o tempo. Outros viajantes foram chegando, e logo a porta virou uma pequena feira, com conversas cruzadas, risadas altas e elogios ao político — que, vale dizer, nunca eram esquecidos na época da eleição.

            De repente, a Rural Willys apareceu, ronronando e coberta de poeira. Era como se a viagem começasse naquele exato instante.

            O motorista abriu a mala, que logo se transformou num depósito improvisado: sacos de mantimentos, animais vivos, trouxas, presente, ferramentas e, por cima, algumas crianças acomodadas como podiam, rindo do improviso. A parte interna do carro, que deveria levar cinco adultos, recebeu oito — três espremidos na frente, cinco no banco traseiro — além da meninada distribuída entre as pernas dos adultos e em cima dos sacos. Mais produtos foram amarrados no bagageiro sobre o carro.

            E assim seguiram.

            A BR-316 parecia um caminho sem fim. A Rural levantava uma nuvem de poeira que ia ficando para trás como o rabo luminoso de um cometa. Passaram pela pedra do Padre Cícero, cantaram modinhas, conversaram sobre política, falaram da vida, riram das lembranças.

            Uma das crianças, porém, estava enjoada. Encostada no vidro quente, olhava a estrada com uma tristeza muda — até que viu algo estranho: um pneu rolando pela estrada e ultrapassando o carro.

— Mainha, olha! O pneu quer chegar primeiro! — gritou eufórica.

            O motorista, assustado com o alvoroço, freou a Rural. Ao descer, constatou o impossível: o pneu que saíra correndo estrada afora era justamente o pneu traseiro da Rural. Tinha se soltado e, por milagre — ou por sorte de criança — não provocara acidente algum.

            Depois de muita poeira, suor, levantação de carro e aperto de porca, seguiram viagem. Horas mais tarde, cansados, sujos, amontoados, mas felizes, chegaram à capital.

E lá estava ele.

O mar.

Grande, azul, vivo, infinito — tão diferente de tudo o que conheciam.

            As crianças correram para a beira da água, encantadas, rindo como quem descobre um novo mundo. A mãe observava, emocionada, o sonho que enfim se realizava. A família inteira parecia iluminada por aquele encontro com o mar, como se o sertão tivesse aberto uma porta secreta para outra realidade.

            E é assim que muitos santanenses lembram daquele tempo: duro, sofrido, mas cheio de coragem, alegria e histórias que o tempo nunca apaga.

sexta-feira, novembro 21, 2025

A PLÍCIA MIRIM DE SANTANA DO IPANEMA - ANOS DE 1970

 

            A Santana do Ipanema dos anos de 1970 tinha uma cadência própria, uma respiração que misturava o barulho das carroças, o chiado das casas de telha quente e o movimento das ruas de chão batido com o correr das crianças que faziam da cidade o seu grande quintal. E foi nesse cenário, ainda ingênuo, ainda provinciano, que surgiu a Polícia Mirim, uma das iniciativas mais marcantes para quem viveu a infância naquela década.

            A Polícia Mirim não era polícia de verdade — mas na cabeça da meninada era quase como se fosse. Funcionava como um pequeno pelotão cívico, organizado por alguns professores do Grupo Escolar Padre Francisco Correia e apoiado pela prefeitura, que via naquilo uma forma de ensinar disciplina e civismo, coisas muito valorizadas na época.

O uniforme

            A memória mais viva de todos era o uniforme. Camisa branca muito bem passada — passada daquelas que a mãe dizia “cuidado pra não amassar” —, calça azul-marinho que quase sempre ficava curta depois de dois meses de uso, cinto preto e o boné, que era o orgulho do pelotão. O boné tinha uma pala firme, e muitos meninos tentavam deixá-la mais reta apertando entre os livros da escola.

            Os sapatos, esses variavam. Nem todo mundo tinha sapato “de desfile”. Uns iam com Kichute, outros com sapato velho engraxado que a mãe polia com jornal.

Os ensaios

            Os treinos aconteciam no pátio de cimento quente do Padre Francisco Correia, geralmente no fim da tarde. O sol ainda batia forte no fim dos anos 1970, e o calor subia do chão como um vapor que entortava o ar. O professor — às vezes um sargento reformado que ajudava no projeto — caminhava de um lado para outro ensinando a ordem unida:

— Sentido!

— Direita, volver!

— Marche!

            E a criançada ia, meio desengonçada, mas orgulhosa. Para muita gente, era a primeira vez que alguém pedia disciplina de verdade.

As apresentações

            O auge era sempre o desfile de 7 de setembro. A cidade se enfeitava, as famílias se arrumavam cedo, e a avenida principal ficava tomada. A Banda Marcial começava os primeiros toques e o pelotão da Polícia Mirim vinha logo atrás, em passo marcado, tentando manter o ritmo da caixa.

 

            As pessoas batiam palmas. Alguns pais se emocionavam. Um ou outro menino levantava o peito, tentando parecer mais alto. Era o dia em que a cidade via a si mesma organizada, bonita, com a criançada representando o futuro.

A disciplina e as pequenas missões

            De vez em quando, o grupo era chamado para ajudar em pequenos eventos: organizar fila na vacinação, auxiliar na entrega de merenda em alguma festividade da escola, ou até orientar os alunos mais novos na entrada da aula.

            Nada de autoridade de verdade. Mas para quem tinha dez ou onze anos, aquilo dava um senso de importância que até hoje fica guardado.

A marca que ficou

            A Polícia Mirim durou alguns anos e, como muitas coisas daquela época, acabou se perdendo no tempo, engolida pelas mudanças políticas, pela modernização e pelo novo ritmo da cidade. Mas quem viveu lembra. Lembra do boné, do calor do pátio, da voz do professor ecoando, do orgulho besta — e bonito — de marchar na avenida.

            Era uma Santana simples, mas cheia de invenções sociais que acabavam virando lembrança afetiva. A Polícia Mirim foi uma delas: um pequeno capítulo de civismo infantil num tempo em que a cidade parecia grande porque a gente era pequeno.

quinta-feira, novembro 20, 2025

O DIA QUE A CIDADE CHEIRAVA A INFÂNCIA

 

            Em Santana do Ipanema, a infância não era apenas uma fase — era um território livre, amplo como o céu do sertão. Nas ruas quase sem carros, as crianças fabricavam mundos inteiros com duas pedras fazendo o papel de trave, uma bola de plástico ou mesmo uma improvisada, uma bola de couro comprada na loja da família Alcantara. Entre uma partida e outra, unhas arrancadas, joelhos ralados e braços engessados não eram acidentes: eram medalhas de honra da vida de menino e menina.

            O rio Ipanema, serpenteando a cidade, era mais que um rio: era extensão da casa. Ali se banhavam os pequenos, enquanto as lavadeiras batiam roupas nas pedras e estendiam lençóis e camisas sobre o capim para curar ao sol forte. O barulho das batidas na pedra se misturava ao riso das crianças, que aprendiam a nadar antes mesmo de aprender a escrever seus próprios nomes.

            E entre subir e descer as ladeiras, a escola se encaixava como complemento do mundo: era ali que se descobria que existia vida além das fronteiras secas do sertão. A igreja, por sua vez, não era apenas templo — era o coração espiritual de Santana. Católicos, batistas, assembleianos, espíritas… cada grupo vivia sua fé, mas todos sabiam que, no fundo, a cidade inteira respirava religiosidade. Era parte da identidade, assim como o pó das estradas e o calor do meio-dia.

            Mas havia dias em que o coração das crianças batia diferente.

            No São João, por exemplo, quando o cheiro de milho assado e licor invadia as ruas, e as fogueiras iluminavam a noite como pequenas estrelas terrestres. Na festa da Padroeira, quando o parque de diversões chegava e fazia a cidade parecer maior do que realmente era. No Natal, quando a Missa do Galo dava um ar de mistério à madrugada, e cada criança ia dormir sabendo que, ao acordar, um embrulho deixado por Papai Noel estaria aos pés da rede ou da cama. Sapatos novos, roupas cheirando a pano recém-costurado… tudo era festa, tudo era encanto.

            Mas existia um dia especial — um dia que pertencia, mais do que qualquer outro, ao universo infantil: 27 de setembro, dia de São Cosme e São Damião.

            Nesta data, Santana parecia pulsar em ritmo diferente.

            Dias antes, corria o boato pelas ruas de chão batido: “Já tão entregando os cartões na casa do Major Darcy!” O coração da meninada disparava. Os cartões — carimbados, rubricados — eram garantia de uma sacolinha com doces e brinquedinhos. Algumas crianças guardavam o cartão como um tesouro. Outras, que não conseguiam, iam na esperança, porque, no fundo, todos sabiam que sempre tinha um pacote a mais.

            A casa da família de Major Darcy, no centro da cidade, se transformava em ponto de peregrinação infantil. Erguida em local de destaque, ela se enfeitava não com bandeirolas, mas com vozes, risadas e pés descalços batendo no chão apressados. Naquele dia, a fila era tão grande que parecia abraçar o quarteirão.

 

E os olhos das crianças brilhavam — não apenas pelo doce, mas pela sensação de pertencimento, de cuidado, de graça recebida.

            A família fazia aquilo por promessa, por fé, por devoção e, sobretudo, por caridade. Caridade que não humilhava, mas alegrava. Caridade que aproximava. Caridade que, por algumas horas, unia toda a cidade em torno de um gesto simples e profundo: fazer uma criança sorrir.

            Quando finalmente chegava a vez de cada pequeno, o pacote caía nas mãos como um presente do céu. Um punhado de balas, um brinquedinho barato, a lembrança de algum santo. Mas para o coração infantil, aquilo era imenso. Era bênção. Era festa. Era prova de que o mundo podia ser generoso.

            À tarde, as ruas se enchiam de crianças mastigando balas coloridas, correndo com seus brinquedos, mostrando com orgulho o que haviam recebido. E mesmo aquelas que tinham ido sem cartão voltavam para casa com as mãos cheias, porque a cidade sempre dava um jeito de abraçar todos no final.

            O sol se punha atrás das serras, tingindo o céu de laranja. E naquele instante, a fé, a infância e a caridade se entrelaçavam como se fossem parte de um mesmo tecido. Um tecido que, mesmo com o passar dos anos, nunca se desfaz.

            Em Santana do Ipanema, onde cada pedra da rua guarda uma história, o dia de Cosme e Damião era um lembrete eterno: na simplicidade dos gestos se escondem os milagres mais bonitos.

quarta-feira, novembro 19, 2025

SANTANA DO IPANEMA: FRAGMENTOS DE UMA CIDADE EM MOVIMENTO

 

            Há cidades que se contam por ruas; Santana do Ipanema, nas décadas de 1960 e 1970, se contava por territórios de alma. Não era apenas São Pedro, Monumento ou o Centro. Eram camadas vivas de um corpo maior: São Vicente, Camoxinga, a região da Barragem, o Rabo da Gata, o Aterro — cada pedaço com sua gente, seu modo de viver, suas próprias leis silenciosas.

São Vicente: O Silêncio que Ampara

            No alto do bairro de São Vicente, onde o vento parecia soprar mais devagar, estava a Casa de Repouso São Vicente de Paula. As janelas sempre entreabertas deixavam escapar conversas murmuradas, risos esquecidos, histórias que se perdiam no tempo. Ali viviam idosos sem família, e outros que lutavam contra os labirintos da mente. Era um lugar de quietude e de afeto tardio, visitado por poucos, mas lembrado por todos.

O Aterro e Suas Travessias

            Para muitos, o Aterro era um lugar a evitar; para outros, era caminho obrigatório. Ali sobreviviam mulheres que trocavam carícias por sustento, num pedaço da cidade onde julgamentos e silêncios caminhavam lado a lado. E, apesar das proibições veladas, dezenas de crianças passavam por ali todos os dias a caminho da Escola Estadual Deraldo Campos. Quem viveu essa época conhece bem aquele trecho onde inocência e dureza dividiam a mesma rua.

Camoxinga: O Pulso da Cidade

            Da estrada do Aterro, chegava-se ao Maracanã, ponto de encontro do Camoxinga. As calçadas eram altas, devido aos terrenos serem em declive e, ao mesmo tempo, dava perspectiva à vida que corria. O Camoxinga era um bairro completo: tinha o hospital, tinha a igreja de São Cristóvão e tinha histórias que só quem viveu consegue contar.

            A festa de São Cristóvão marcava o calendário santanense. Era mais do que religião: era espetáculo, era comunidade. A procissão de carros formava uma fila interminável, serpentando pelas ruas. À frente, num caminhão decorado, ia a imagem do santo, e o motorista fazia soar a buzina como um toque de bênção. Cada buzina que ecoava atrás parecia uma prece, um agradecimento, um pedido. O som se misturava aos hinos religiosos nos alto-falantes, criando uma trilha sonora que se escutava com o corpo inteiro.

O Estádio e os Domingos de Clássico

            Subindo para o Alto do Cemitério, chegava-se ao estádio. Era ali que a cidade parava para ver Ipiranga e Ipanema disputarem a glória. Nos domingos de clássico, não havia quem não encontrasse um jeito de dar uma passada pelo campo, nem que fosse para ouvir o burburinho da torcida, sentir o cheiro da poeira levantada pelos pés ansiosos dos jogadores, ou discutir, como sempre, quem tinha o melhor ataque.

Barragem e o Rumo das Águas

            Do Maracanã, descendo pela estrada de asfalto novo, chegava-se à Barragem. Uma ponte estreita cortava o Rio Ipanema, cercada por muros erguidos para segurar as águas nas épocas de enchente. Para as crianças, era aventura. Para os adultos, era vigilância. Para todos, era um divisor de histórias — e de destinos.

No Rastro do Rabo da Gata

            Ao atravessar a ponte nova, no final da Barão do Rio Branco, despontava o rabo da gata — uma região de estrada longa, ladeada de mato, pequenas casas e mistério. Esse caminho seguia rumo a Olhos D’Água e Pão de Açúcar, cidade moldada às margens do Velho Chico. Era uma estrada que carregava poeira, sonhos, promessas e despedidas.

            No alto da serra, dominando a paisagem, estava a famosa micro-ondas, eternizada por Remi Bastos. Para muitos, era só uma torre. Para os santanenses, era um marco: sinal de modernidade chegando, cortando a solidão da caatinga com seus sinais invisíveis.

Uma Cidade de Muitas Cidades

            Santana daquelas décadas era feita de fronteiras e encontros. As divisões naturais da cidade criavam pequenas culturas particulares, mas todas se entrelaçavam na vida diária. O rio, as pontes, os bairros, os times de futebol, as festas, a poeira das estradas — tudo compunha um mosaico vivo.

            Hoje, quem viveu aquele tempo guarda essas memórias como quem guarda um álbum raro. Não pelas fotografias, mas pelos sons, pelos cheiros, pelos medos e alegrias que fizeram parte de uma Santana do Ipanema que já não existe mais — a não ser dentro de quem a viveu.

terça-feira, novembro 18, 2025

OS MENINOS DA RUA DAS LADEIRAS

 

            Naquele pedaço de Santana do Ipanema, onde as casas pareciam conversar umas com as outras pelas janelas abertas, nascer no início dos anos de 1960 era nascer livre. Livre como o vento quente que descia das serras, como o pó fino que se levantava das ladeiras de pedra, como os riachos que corriam quando o inverno dava o ar da graça.

            A rua era a primeira escola — e o primeiro lar fora de casa.

            As portas ficavam escancaradas desde cedo. As mães, vestidas com seus aventais floridos, cuidavam da casa, da comida, dos filhos, das conversas com vizinhas. Os pais saíam para seus ofícios, alguns com marmitas embrulhadas em panos, outros montados em bicicletas, outros ainda indo a pé medir terras, trabalhar no comércio ou ajudar na roça de parentes.

            Para as crianças, a única obrigação era brincar.

            Assim que o sol começava a esquentar o terreiro, os pés pequenos já estavam correndo pelas ladeiras nuas, saltando as pedras, inventando caminhos, procurando uns aos outros. Em minutos, uma turma inteira se formava, como se tivessem sido convocados por algum sino invisível.

            Brincar era um trabalho sério.

            Havia os grupos que jogavam bola com bola de meia; os que preferiam as “ximbras” feitas de vidro transparente; as meninas rodavam cordas e riam alto; e os mais aventureiros corriam para os matos e porões das casas antigas, onde a imaginação fazia de qualquer canto um castelo, um esconderijo, uma fortaleza.

            Mas o grande palco das aventuras era o Panema.

            Quando o rio secava e deixava apenas poças grandes, a criançada se jogava na água rasa, deitada sobre pedras lisas, aprendendo a nadar com os braços e pernas agitados como se imitassem um cachorro. Depois, ousavam mergulhar sem a pedra, e aos poucos iam dominando a arte dos mergulhos, das braçadas largas.

            O batismo final era no Poço dos Homens.

            Entre duas pedras altas, separadas por uns três metros, os valentes saltavam entre uma e outra, suando frio, tremendo as pernas, mas vencendo o medo com gargalhadas. Quem conseguia tocar o fundo do poço com o pé virava herói do dia.

            Voltavam para casa sujos, arranhados, famintos — e felizes.

            Na mesa, sempre havia fartura: cuscuz fumegante, aipim macio, arroz soltinho, feijão engrossado, frango de quintal, charque acebolada, queijo de coalho, leite com nata grossa. Nos dias festivos, buchada de bode; na Páscoa, bacalhau; no Natal, peru.

            Às vezes, depois dos machucados, vinham os cuidados: o iodo que ardia feito fogo, o mertiolate que deixava a pele cor de ferrugem, e antes do almoço, a famosa Emulsão de Scott, o “fortificante” que fazia a cara das crianças virar careta antes mesmo de chegar à boca. Mas o medo da palmatória pendurada atrás da porta garantia que o frasco voltasse vazio para a prateleira.

            A fé também fazia parte da rotina. A catequista Letícia reunia dezenas de crianças para ensinar paciência, respeito e os preparativos para a primeira comunhão. Depois vinha a confirmação — e todo mundo ia arrumado como se fosse um desfile de reis.

            Quando a tarde avançava e o calor dava trégua, a meninada sumia rumo ao riacho do Bode, carregando pão com mortadela e cajuína comprados na bodega de seu Carrito. Lá, pescavam, tomavam banho e contavam histórias de assombração, enquanto o sol queimava o chão e tingia tudo de dourado.

            A televisão era raridade. Uma ou outra casa tinha uma TV, a emissora Tupi que funcionava, não com muita boa vontade: chiado, chuvisco, alguém no telhado rodando a antena e os vizinhos todos sentados no chão, assistindo ao mesmo tempo.

            A cidade era pequena, mas o coração era grande. Todos se conheciam. Todos cuidavam de todos. Criança chamava adulto de tio ou tia, e o adulto chamava criança pelo nome completo, para reforçar o respeito.

            E assim, entre ladeiras de pedras, mato verde, banhos de rio, brincadeiras infinitas e mesas fartas, se formou uma geração inteira — alegre, unida, valente — que cresceu acreditando que o mundo começava e terminava ali, naquele canto quente e querido do sertão.

            Uma geração que leva Santana do Ipanema no peito até hoje, como quem carrega o perfume da infância no bolso da memória.

segunda-feira, novembro 17, 2025

MEMÓRIA DO GRUPO ESCOLAR PADRE FRANCISCO CORREIA

            Há histórias que não cabem apenas nas linhas do tempo. Elas se espalham pela cidade, pousam nos telhados antigos, atravessam gerações e, quando contadas, voltam a perfumar o ar com a lembrança de um tempo em que estudar era quase um ato de coragem. Assim era a presença do Grupo Escolar Padre Francisco Correia na vida dos santanenses: uma porta estreita, mas luminosa, que abria caminhos para além das ladeiras de Santana do Ipanema.

            Fundado em 1938, o Grupo foi durante décadas o palco onde tantas infâncias descobriram que o mundo podia caber dentro de um caderno de capa azul. Ali, entre o cheiro do giz e o murmúrio das leituras de farfalho, as crianças enfrentavam o desafio que marcava a passagem da meninice para a adolescência: a temida prova de admissão. O livro Programa de Admissão era quase um companheiro indesejado — pesado, exigente, capaz de tirar o sono de pré-adolescentes que carregavam nas costas o sonho das famílias: “Passar no exame”. Era como se cada página folheada fosse um tijolo colocado no futuro que ainda estavam aprendendo a imaginar.

            E naquele espaço em forma de círculo, dividido por arcos, onde o pátio abraçava as salas, reinava a figura firme e afetuosa de Dona Marinita Peixoto Noya. Diretora, educadora, guia — mulher cuja autoridade não se impunha pelo medo, mas pelo respeito que florescia espontâneo em todos que ali estudavam. Entre a sala da direção, a secretaria simples, as poucas salas que recebiam alunos em dois turnos, e a rotina da merenda servida com cuidado, Dona Marinita era a alma que fazia a engrenagem funcionar.

            Até que um dia, a doença que rondava sua saúde venceu a batalha. E Santana do Ipanema viu algo que até hoje ecoa como uma cena de profunda humanidade e respeito.

            A cidade parou. O silêncio se instalou como um manto.

            Das portas do Grupo saiu a convocação: todos os alunos deveriam acompanhar o cortejo, uniformizados, levando flores.

            E assim aconteceu.

            Da Rua de São Pedro ao alto do Cemitério Santa Sofia, uma fila imensa de crianças percorreu ruas que pareciam mais longas do que nunca. Passaram pela Antônio Tavares, cruzaram o centro, desceram pela Barão do Rio Branco, seguiram pela ponte do padre e começaram a subida pela Camuxinga. Marchavam como num desfile de sete de setembro, mas não havia banda. Como numa procissão, mas não havia andor. O que havia era uma cidade inteira reconhecendo, através daqueles pequenos passos, o valor de quem dedicou a vida a ensinar.

            As flores que faltaram às roseiras naquele dia sobraram no coração da memória. Cada pétala entregue parecia dizer: “Obrigado, Dona Marinita. O que somos, devemos também a você.” Aquele cortejo não foi apenas uma despedida. Foi um lembrete: a educação é o que sustenta uma comunidade, o que levanta crianças e amadurece cidades. É a força silenciosa que transforma meninos e meninas em cidadãos capazes de sonhar e de agir. É o legado que não se sepulta.

 

            E assim, mesmo décadas depois, quando alguém passa pelo antigo bairro do Monumento, ainda é possível sentir — como brisa antiga — a certeza de que um país só avança quando respeita seus mestres, suas escolas, suas histórias. O Grupo Escolar Padre Francisco Correia foi mais do que um prédio.

            Foi um coração pulsando em nome do futuro.

            E esse pulso continua vivo em cada lembrança que ainda floresce, como as rosas daquele dia, na alma de Santana do Ipanema.


domingo, novembro 16, 2025

SANTANA DO IPANEMA - MEMÓRIAS DE UM TEMPO QUE BRILHAVA DEVAGAR

 

            Dizem que toda cidade tem sua alma. A de Santana do Ipanema, porém, parecia ter duas: uma que crescia silenciosa rumo ao futuro, abrindo ruas novas e empurrando cercas para mais longe… e outra que permanecia ali, firme, dentro do grande círculo central onde tudo acontecia e nada mudava. Era como olhar para uma maquete viva: cada casa, cada comércio, cada pessoa já tinha seu lugar marcado, como personagens de uma peça que nunca saía de cartaz.

            Quem chegava aos sábados para a grande feira — agricultores vindos de Curralinho, Areias, Pedra d’Água, Lajeiro — era recebido por aquele cenário conhecido, quase sagrado. O calçamento de paralelepípedo, a algazarra começava, e o cheiro de carne de bode misturado ao de rapadura fresca parecia anunciar que ali o tempo andava, mas devagar, obedecendo ao ritmo do sertão.

            Logo na entrada do centro, subindo pela Rua Antônio Tavares, as primeiras referências surgiam como sinais de que se estava chegando ao coração da cidade. Do lado direito, as Casas Pernambucanas exibiam seus tecidos alinhados, dobrados com carinho, como se fossem joias. Do lado esquerdo, a farmácia de seu Zeca seu Aleixo e Genival, que vendia remédios, conselhos, simpatias e até apostas da loteria — porque seu Zeca, além de boticário improvisado, era também o mensageiro da sorte.

            Mais adiante, antes da curva que levava ao movimento do centro, vinha a loja de discos de Val. Era ali que a juventude de Santana encontrava o eco do mundo: Roberto Carlos, Waldick Soriano, Dalva, Nelson Gonçalves. Alguns mais velhos lembravam que antes ali tinha sido a bodega de seu Marinho, e às vezes até parecia possível ouvir o tilintar das garrafas que Marinho organizava no fim das tardes quentes.

            Atravessando a rua e aproximando-se do círculo central, surgia o sempre animado Bar Continental, ponto obrigatório dos homens que queriam um gole gelado e uma conversa despretensiosa. Ao lado, a loja de tecidos de Gracita, enfeitava a calçada com cores vivas. E, um pouco adiante, vinha o ponto mais doce da cidade: a Sorveteria Maringá. Crianças correndo, adolescentes rindo sem motivo, casais de mãos suadas trocando olhares tímidos… Ali era onde a vida aprendia a ser leve.

            Subindo em direção à Rua Nova, as referências continuavam: a casa de ferragens de Rubens, sempre perfumada de óleo e metal novo; a padaria de Raimundo, onde o cheiro quente do pão chamava mesmo quem já tinha tomado café; e a livraria de Ana Agra, responsável por abastecer estudantes, professores e sonhadores com cadernos, lápis e pequenas histórias impressas.

            Descendo novamente para Barão do Rio Branco, o movimento voltava a crescer. Havia a Casa de ferragens Cristino, a loja de alfaiataria com tecidos elegantes, de propriedade do casal Benedito e Virginia Nepomuceno, Casa do Ferrageiro, e a farmácia de seu Alberto Agra, um homem que parecia conhecer tanto de remédio quanto de mapas e montanhas distantes.

            Na entrada da Barão, o bar de Sebastião do Padre marcava território. Diziam “do Padre” porque era sobrinho do padre Cirilo, e isso bastava para ser conhecido por toda a cidade.

            A poucos passos dali o cheiro de couro trabalhado denunciava a oficina e armazém de seu Evilásio, herdeiro das técnicas antigas de fazer sapatos aprendidas com seu Aprígio, pai de José Ricardo, o maestro da banda Santa Cecília — outro símbolo vivo da tradição do lugar.

            E ao lado, firme como poste de esquina, estava o armazém de Zezito de Deoclécio. Ali se vendia de tudo: arroz, açúcar, sal, óleo, querosene, vela, sabão, café. Zezito era quase um prefeito da zona rural, porque conhecia cada agricultor pelo nome, pela roça e, às vezes, pelas dívidas também. Era ele quem abastecia muitos dos pequenos comércios da cidade, girando a roda do sertão com generosidade e calma.

            Mais adiante, outros armazéns compravam feijão, milho, algodão. Um ciclo que parecia eterno: o que a terra dava, a cidade recebia, transformava e devolvia em vida. Já os animais — galinhas, bodes, carneiros — tinham seu espaço reservado mais próximo do rio Ipanema, onde o barulho era grande e a poeira maior ainda.

            Em frente a esses armazéns, no lado direito da rua, havia comércios que se destacavam: a loja de tecidos Casas GG, enorme, movimentada, um orgulho local; a distribuidora de bebidas, responsável por refrescar as festas do sertão inteiro; e o armarinho que, como uma caixinha de costura viva, vendia miudezas capazes de salvar qualquer dona de casa em apuros.

            E assim era Santana do Ipanema naquela época: um lugar onde cada porta aberta carregava uma história, onde cada pessoa tinha apelido, parentesco e propósito, onde a cidade crescia, mas sem nunca perder o rosto.

            Hoje, quem caminha pelas mesmas ruas talvez não encontre os mesmos nomes nas fachadas. Mas basta fechar os olhos para ouvir, ainda ecoando entre as paredes antigas, a voz do feirante chamando preço, o barulho dos motores da Rural Willys chegando da roça, o sino da matriz tocando para a missa, e o riso das crianças que corriam na calçada da sorveteria Maringá.

            Porque cidades como Santana do Ipanema não desaparecem. Elas apenas mudam de roupa. A alma, essa, fica para sempre.

sábado, novembro 15, 2025

CARNAVAL EM SANTANA DO IPANEMA: ONDE O PROFANO E O SAGRADO DANÇAM JUNTOS

 

            Em Santana do Ipanema, o Carnaval nunca começa quando o calendário manda. Lá, a festa nasce antes, nos ensaios apressados das escolas de samba, no batuque improvisado dos blocos, no riso frouxo das crianças com seus sacos de polvilho prontos para o mela-mela. A cidade inteira parece entrar num compasso próprio, como se cada rua, cada ladeira, cada quarteirão tivesse seu próprio coração pulsando em ritmo de frevo e marchinha.

            Os blocos tradicionais — o do Bacalhau, o Urso Preto, os Cangaceiros — surgem como velhos amigos que a cidade reencontra todo ano. Entre eles se misturam figuras fantasiadas das mais inesperadas beldades: tem moça que na verdade é rapaz, tem barba por fazer florescendo por baixo da maquiagem borrada, e tem sempre alguém vestido de noiva, arrastando véu, rendas e histórias pelas calçadas quentes. E, claro, os blocos dos sujos, aqueles que aparecem sem aviso, pintados, suados, felizes.

            No sábado de Zé Pereira, o Tênis Clube Santanense vira outro mundo. As portas se abrem e as marchinhas começam, vivas na boca da banda contratada de longe. Lá dentro, ninguém é mais rico ou mais pobre, mais importante ou menos: é tudo um grande salão circular onde cada um brilha do seu jeito. As mesas ficam em volta, cheias de copos, de histórias e de risos, enquanto no centro as duplas giram e giram sem parar.

            Há sempre aquela senhora com a toalhinha de rosto, que tanto serve para enxugar o suor quanto para guiar o parceiro nas voltas, como se fosse um laço macio que conduz o ritmo. E tem o folião com o copo erguido, que dá um passo para frente, dois para trás, repetindo entre gargalhadas:

— Eu chego já... eu chego já!

            Ninguém sabe para onde ele diz que vai, mas todo mundo adora o caminho que ele faz.

            A festa no clube só termina quando o relógio teima em marcar cinco da manhã, e mesmo assim é preciso pedir para o povo ir embora.

            Mas no domingo, às sete horas em ponto, todo mundo está na Matriz de Senhora Santana, vestidos como se tivessem dormido cedo — mas ninguém dormiu. O padre Cirilo fala, mas o coração dos fiéis está em outro lugar: nas fantasias guardadas em casa, no cheiro de goma e purpurina, no batuque que parece ecoar das ruas.

            Quando o padre diz “vão em paz”, ninguém espera o resto. A frase termina no ar vazio das portas batendo. O Carnaval, afinal, espera.

            De porta em porta passam os blocos. E em cada porta aberta há uma mesa com cachaça, um prato de tira-gosto e uma gargalhada diferente. O bloco do Bacalhau canta forte:

“O bacalhau só presta com café,

vamos beber agora na casa do seu José!”

             E lá vai a multidão entrando na casa de seu José, como se fosse a cozinha de cada um deles.

            Reginaldo, vestido de noiva — véu torto, batom borrado, sorriso largo — canta pelo caminho:

“A cara de rapariga é um barbado, não há quem diga!”

            E ninguém resiste: ri, acompanha, abraça.

            Remi surge logo atrás, cantando com orgulho “Santana dos Meus Amores”, seu hino particular da cidade. E quem ama Santana canta junto — seja por tradição, por alegria ou pela simples vontade de pertencer àquele instante.

            Na segunda-feira, as escolas de samba se preparam para o grande desfile. Duas apenas — mas para Santana, são como dez. De um lado, a escola do Camoxinga; do outro, a do Monumento. Separadas por um riacho coberto pela famosa ponte do padre, mas unidas pela paixão da bateria. A cidade inteira se aperta nas calçadas para ver quem dança mais bonito, quem brilha mais forte, quem arrasta mais emoção.

            Na terça, ninguém sabe quem ganhou... mas também não importa. O importante é ter vivido.

            E então chega a madrugada da Quarta-feira de Cinzas. O Tênis Clube fecha às cinco da manhã, mas ninguém se despede. A banda sai pelas ruas, conduzindo a última procissão profana do ano. Os foliões seguem atrás, cansados, felizes, ainda brilhando de purpurina, cantando como se o peito fosse estourar:

“Ô quarta-feira ingrata,

chegou tão depressa,

só pra contrariar!”

            E, quando o sino da matriz toca às sete, chamando para a Missa das Cinzas, muitos vão — olhos vermelhos, corpo dolorido, mas alma leve. Ali, diante do altar, o sagrado e o profano se encontram pela última vez antes da quaresma. Um pede silêncio, o outro deixa uma última risada escapar.

            Santana do Ipanema respira fundo.

            O Carnaval termina.

            Mas a alegria, essa nunca vai embora.

sexta-feira, novembro 14, 2025

GADO, VIOLA E SONHO

 

            Santana do Ipanema, orgulhosa terra do feijão, sempre foi chamada de capital do sertão alagoano. Era uma cidade que pulsava forte no coração do sertão, com seu comércio ativo, suas ruas cheias e uma gente trabalhadora, firme como o chão de pedra que sustentava suas casas. Na década de 1970, enquanto o sertão se reinventava para enfrentar as dificuldades, Santana despontava como uma das cidades mais desenvolvidas da região.

            Ali, pequenos proprietários de gado bovino iam tocando a vida com coragem e esperança. Com o tempo, alguns santanenses começaram a ousar: buscaram gado holandês em outros Estados, atraídos pela promessa de leite farto e boa rentabilidade. Para corte, traziam o nelore, forte e adaptável. Aos poucos, o movimento da pecuária foi crescendo, e tornou-se necessário expor os animais, mostrar qualidade, negociar, aprender.

            Foi assim que surgiram em Santana as exposições de gado, eventos que agitavam o sertão e atraíam gente de longe — compradores, curiosos, comerciantes, agricultores, famílias inteiras querendo um dia de festa.

            As ruas próximas à exposição ficavam tomadas. Nos galpões e estandes, via-se de tudo:

— bovinos de pelo lustroso,

— ovelhas branquinhas,

— galinhas de raças variadas,

— e máquinas agrícolas novinhas, brilhando ao sol.

            Havia espaço para palestras, onde técnicos falavam sobre rações, cuidados sanitários, novas técnicas de criação. Era um tempo de aprender, negociar e celebrar. Durante os desfiles, os animais eram conduzidos com orgulho: touros imponentes, vacas de alta produção leiteira, novilhas promissoras. E, no último dia, a grande entrega dos troféus, que valorizava ainda mais o gado campeão e trazia bons negócios para seus proprietários.

            Entre toda aquela movimentação, havia um rosto que se destacava pela energia: Júlio César, um adolescente esperto, rápido, sempre com um sorriso nos olhos. Para ele, a exposição era o melhor período do ano — um mundo onde trabalho e diversão se misturavam.

            Júlio passava o dia inteiro no parque:

— dava banho nos animais,

— escovava e deixava o pelo brilhando com óleo,

— limpava o espaço,

— trocava a água e a ração,

— e ainda encontrava tempo para montar em um dos cavalos que também estavam expostos.

 

            Quando algum criador precisava de ajuda para conduzir um animal no desfile, era Júlio que chamavam. Ele tinha jeito, tinha calma nas mãos e firmeza nos pés. Além disso, aproveitava cada oportunidade para vender alguma coisa — um refrigerante, um saco de milho, uma corda — e juntar uns trocados.

            Mas, apesar de gostar de tudo isso, havia algo que Júlio amava de verdade:          as noites de violeiros.

            Quando o sol se escondia atrás da serra e a feira se iluminava, começava o que ele chamava de “hora bonita do dia”. Os violeiros subiam ao pequeno palco, afinavam suas violas e começavam a cantar desafios, repentes e histórias rimadas que faziam o povo rir, se emocionar, bater palmas e pedir bis.

            Júlio ficava ali, sentado na cerca de madeira, com as mãos ainda cheirando a curral, mas o coração leve. Prestava atenção em cada verso, cada improviso, tentando guardar as rimas na memória. Sonhava, quem sabe um dia, também subir no palco e cantar sua vida, sua cidade, suas histórias do sertão.

            E foi numa dessas noites — com o vento morno passando, as estrelas acesas no alto e a viola soando macia — que Júlio, pela primeira vez, improvisou baixinho uma rima, só para ele. Era simples, mas sincera:

“Na feira de Santana

Tudo tem seu valor

No gado, na vida dura

O sertão mostra o seu amor.”

            Ele sorriu. Talvez ninguém tivesse ouvido, mas ali, naquele instante, algo dentro dele cresceu.

            A exposição terminaria em poucos dias, os troféus seriam entregues, os animais voltariam para as fazendas e os visitantes seguiriam viagem. Mas Júlio carregaria para sempre aquelas noites de música, poeira e esperança — lembranças que moldariam sua vida muito mais do que ele imaginava.

            E Santana do Ipanema seguiria sendo isso: uma cidade que planta trabalho, cria sonhos e colhe histórias bonitas como a de Júlio César.

quinta-feira, novembro 13, 2025

A FOGUEIRA DE SÃO JOÃO

 

            Os anos passavam, e parecia que certos momentos em Santana do Ipanema se recusavam a ir embora. Eram lembranças vivas, como brasas que nunca se apagam. A cidade inteira respirava tradição, e havia quem dissesse com firmeza:

— É preciso guardar dinheiro para as quatro festas do ano!

            E assim era. As costureiras já sabiam que, naqueles meses, o sono seria luxo. As máquinas de costura chiavam noite adentro, e o som dos pedais era quase música de trabalho. As mães, com a revista Manequim aberta sobre a mesa, escolhiam os modelos das roupas novas — vestidos rodados, camisas de gola firme, laços e fitas coloridas. Os armarinhos se enchiam de vida: botões, linhas, fitas e tecidos iam trocando de mãos, tecendo também os sonhos de cada família.

            Das quatro festas, nenhuma era mais esperada que a de São João. Desde o começo de junho, o cheiro de lenha e de milho verde já anunciava o que vinha. Os homens se reuniam para buscar madeira no mato e erguer as fogueiras na porta de casa, cada uma mais alta e bonita que a outra. As mulheres, animadas, iam à feira: voltavam empurrando carroças cheias de espigas de milho — era milho pra pamonha, pra canjica, pra bolo e pra assar na fogueira.

            Os fogueteiros da cidade — como Zuza e a família de Vicença — passavam dias preparando bombas, traques e chuvinhas. Sabiam o gosto que o povo tinha pelo barulho e pelo brilho. Moacir, o dono do parque, chegava com Seu caminhão cheio de brinquedos: a roda-gigante girava lenta, iluminando o céu de cores que pareciam estrelas caídas; o carrossel tocava sua música encantada; o barco-voador fazia os mais corajosos gritarem de alegria.

            E ninguém esquecia a “mulher que virava macaco”, atração esperada, que metia medo e arrancava gargalhadas das crianças.

            Na rua de São Pedro, ponto alto da cidade, ficava a casa de seu Pimpim — sapateiro conhecido e respeitado, homem de fala mansa e mãos de ouro. De sua calçada, ele via o vai e vem do povo, o brilho das fogueiras, o colorido das bandeirinhas e as crianças correndo com chuvinhas nas mãos, desenhando rastros de luz no escuro.

            A missa de São João reunia famílias inteiras. Depois, todos voltavam para acender suas fogueiras. Sentavam-se ao redor, contavam histórias, assavam milhos e riam alto. E quando o fogo baixava, começava a brincadeira de pular a fogueira — um segurando na mão do outro, com coragem e alegria.

Era nessa hora que muitos selavam laços eternos:

— São João disse, São Pedro confirmou, nós somos compadres em Nosso Senhor! — diziam, rindo e se abraçando.

            E assim nasciam compadrios que duravam a vida inteira.

 

            A noite terminava em cheiro de fumaça, risos espalhados e corações quentes. As estrelas, lá no alto, pareciam brilhar um pouco mais sobre Santana do Ipanema. E quem viveu aquilo nunca mais esqueceu — porque certas festas não terminam, apenas mudam de tempo.

JULHO EM SANTANA: QUANDO A JUVENTUDE VIRAVA FESTA

             Santana do Ipanema sempre foi mais que um ponto no mapa. Foi — e ainda é — um lugar de pertencimento, um chão que cria raízes i...