sábado, novembro 29, 2025

OS CHICLETES DA TRAVESSURA

 

            A esperteza de criança é rápida, mas a consciência chega sempre depois — e, quando chega, mostra que diversão sem maldade é diferente de enganar alguém. Travessura é travessura, mas honestidade é coisa que nem o tempo, nem as mudanças do dinheiro, podem desvalorizar.        

             Muitas histórias nascem da infância vivida em Santana do Ipanema — e quase todas têm aquele cheiro de rio, de barro quente e de imaginação sem freios. A criançada criava seu próprio mundo observando o mundo dos adultos: se os homens jogavam bola nos times Ipiranga e Ipanema, eles também viravam craques nas ilhas do Rio Ipanema; se os adultos nadavam e pescavam, eles imitavam nas braçadas tímidas entre um mergulho e outro; e até as carteiras de cigarro, quando vazias, eram recicladas em notas de “dinheiro”, com valores inventados para negociar sonhos de infância.

            Tudo era brincadeira — mas o mundo adulto, esse sim, vivia suas turbulências de verdade. A economia parecia uma gangorra. O dinheiro mudava de valor, mudava de nome e até de roupa. Primeiro era cruzeiro, depois era cruzeiro novo, depois voltava a ser cruzeiro e ninguém sabia até quando. Foi em meio a uma dessas mudanças que dois meninos, conhecidos na rua por serem “arteiros do primeiro grau”, resolveram transformar a criatividade em ousadia. Eles encontraram uma cédula antiga, já fora de uso, e, munidos de uma caneta meio falha, decidiram “atualizar” o dinheiro. Se o governo tinha mudado a moeda, por que eles não poderiam fazer o mesmo?

            — Pronto! Agora tá igualzinha! — disse um deles, com a convicção de quem achava que tinta de caneta era ferramenta oficial da Casa da Moeda.

            Com a nota “atualizada”, foram direto para a bodega de seu Maxwel. A bodega era quase um museu: pouca coisa para vender e muita história para contar. Seu Maxwel, já de idade avançada, mantinha o comércio mais como passatempo do que como negócio. Entre um cliente e outro, passava o tempo ajeitando o candeeiro, coçando a barba rala e lembrando dos velhos tempos. A noite estava escura e o candeeiro aceso tremia como se estivesse cansado também. Os meninos chegaram tentando parecer sérios, mas a ansiedade brilhava mais que o vidro da lamparina.

            — Seu Maxwel, dá uns chicletes aí... — pediu o mais ousado.

            Ele pegou a nota, olhou por cima dos óculos, virou de um lado, virou do outro… e como as vistas já não eram as mesmas, deu de ombros. Entregou o troco e um punhado de chicletes. Os moleques encheram os bolsos e também a boca. E aí… correram. Desceram a ladeira como quem foge de uma onça. A cada pulo, um dos meninos dizia que a carreira batia “com o pé na bunda”. Pularam pedra, pularam muro e se esconderam numa construção inacabada, rindo sem conseguir respirar — quase engasgando de tanto chiclete mascado de uma vez só.

            Poucos minutos depois, ouviram ao longe um grito:

            — SEUS FILHOS DE UMA ÉGUA!!!

            Era seu Maxwel, trôpego, furioso e cuspindo palavrões que, provavelmente, nem ele lembrava de onde tinha aprendido. A nota falsificada tinha sido descoberta. Mas, apesar da braveza, ele não ia correr muito longe; as pernas já não acompanhavam mais o tamanho da raiva. Os meninos ficaram escondidos ali, no meio do tijolo e do sereno, até o velho desistir da caçada. E voltaram para casa com a barriga cheia de goma — e o coração cheio de medo, mas também de riso.


quinta-feira, novembro 27, 2025

SETEMBRO DE LUZES: A SEMANA DA PÁTRIA EM SANTANA DO IPANEMA

 

            Naquele início de setembro dos anos 1970, Santana do Ipanema parecia respirar um ar diferente — um ar de expectativa, de ritmo marcado pelas batidas da fanfarra e pelo orgulho estampado nos rostos de crianças e adultos. Era como se, durante a Semana da Pátria, a cidade inteira se lembrasse de que fazia parte de algo maior: o Brasil.

            Logo no dia primeiro, antes mesmo do sol ganhar força, ouvia-se ao longe o som grave do bumbo e o tilintar dos pratos da banda fanfarra. À frente, com postura impecável, seguia o senhor Miguel Bulhões, mastro respeitadíssimo, conduzindo cada passo com seriedade de comandante e ternura de educador. As ruas principais iam acordando junto com a música; janelas se abriam, moradores acenavam, crianças corriam para ver a banda passar.

            Para os alunos, aquela semana era mais do que um conjunto de eventos — era um rito de passagem. A corrida do fogo olímpico, talvez o mais esperado dos momentos, mobilizava toda a juventude santanense. Alunos-atletas treinavam com antecedência, sabiam que ali não se tratava apenas de correr, mas de levar nas mãos um símbolo. O fogo, revezado de rua em rua, tinha destino certo: a praça do Ginásio Santana, no bairro do Monumento.

            Quando a tocha finalmente chegava, a multidão se calava. A bandeira era homenageada, a pira era acesa e, dali em diante, queimaria firme até o dia sete. Ao seu lado, alinhadas, tremulavam as bandeiras do Brasil, de Alagoas e de Santana do Ipanema. E como guardiões daquele fogo simbólico, dois alunos permaneciam em vigília durante todo o dia — impecavelmente uniformizados, sapatos engraxados, corpo ereto, expressão séria. Era um orgulho quase solene ser escolhido para ficar ali, ainda que por uma hora.

            A praça, durante a semana, nunca ficava vazia. Havia apresentações, declamações, pequenos desfiles, dramatizações, às vezes apenas grupos de estudantes cantando o Hino Nacional com fervor de quem acredita. Participar era uma necessidade, um gesto de pertencimento. Os pais acompanhavam de perto, vibravam, ajeitavam uniformes, davam conselhos; sabiam que aqueles momentos moldavam o caráter dos filhos.

            Em cada olhar juvenil, havia o brilho de quem compreendia — ainda que de forma simples — que o patriotismo não estava apenas num hino ou numa bandeira, mas na ideia de fazer parte de um país que era seu. Os jovens validavam sua pátria com passos firmes no calçamento de paralelepípedos quente, com a mão no peito durante o hasteamento, com o respeito às cores que representavam sua história e seu futuro.

            E assim, ano após ano, setembro transformava Santana do Ipanema num grande palco de civismo. Uma cidade pequena, mas repleta de grandes sentimentos. Uma época em que o Brasil cabia inteiro naquela praça iluminada pela pira acesa, pela fanfarra que ecoava nos becos e, sobretudo, pelos corações jovens que, com inocência e orgulho, aprendiam a amar sua pátria.

quarta-feira, novembro 26, 2025

MEMÓRIAS GUARDADAS EM LUZ - COM RETOQUE OU SEM RETOQUE?

 

            Memórias são passagens. São pedaços de vida que colhemos ao longo do caminho — encontros com outros, encontros conosco, pequenos instantes que insistem em permanecer. E cada pessoa encontra um modo próprio de guardá-las: num diário amarelado, num bibelô esquecido na cristaleira, numa carta dobrada dentro de uma caixa de sapatos. Em Santana do Ipanema, nas décadas de 1960 e 1970, as lembranças se multiplicavam como sementes lançadas ao vento, e cada morador encontrava o seu jeito de guardar o que o coração não queria perder.

            Entre todas as formas de preservar o tempo, havia uma que carregava um encanto especial: a fotografia. Naquele tempo, ter uma máquina fotográfica era privilégio de poucos. Por isso, os lambe-lambe da feira de sábado eram tão importantes. Ali, com suas engenhocas cobertas por panos escuros, faziam nascer retratos instantâneos. As famosas fotos três por quatro, sempre com uma tabuleta no peito marcando a data, eram documentos para a vida adulta. Mas havia mais: famílias de sítio, num misto de orgulho e timidez, posavam para fotos de corpo inteiro. Enamorados registravam seu amor em papel, escrevendo atrás da foto uma dedicatória que valia mais que qualquer aliança. Filhos e pais fotografavam-se para enviar a parentes distantes — e assim as memórias viajavam até São Paulo e tantos outros cantos do país.

            E havia o fotógrafo das crianças, aquele que encantava os pequenos. Carregava um cavalinho de madeira às costas, selado como se viesse de um filme. Trazia também armas de brinquedo, pois as crianças gostavam de se imaginar heróis do faroeste. Eram cenas inventadas, fantasias puras, mas que ganhavam eternidade no visor da sua máquina. A fotografia, naquele tempo, era quase mágica.

            Mas nenhum nome se destacava tanto quanto o do fotógrafo Zezinho. Em Santana, bastava dizer seu nome — todos sabiam quem era. Um profissional de mão cheia, diziam com orgulho. Seu estúdio ficava na rua Benedito Melo, a conhecida rua Nova. E era de lá que Zezinho saía, ainda cedo, carregando sua câmera e a responsabilidade de transformar vidas comuns em imagens eternas.

            Nas casas das famílias que o contratavam, tudo já estava preparado: crianças de banho tomado, cabelos penteados com vaselina, roupas de alfaiataria cuidadosamente passadas. Zezinho organizava o cenário, pedia para virar um pouco o rosto, ajeitava a luz, arrumava as mãos. Fazia fotos individuais, em pares, em grupos. E quando terminava, com a calma de quem respeita o tempo da arte, perguntava: “Com retoque ou sem retoque?”. Porque antes do digital, retoque era ofício, paciência e talento.

            Nas escolas, o dia da foto era um acontecimento. Zezinho montava seu cenário tradicional: mesa forrada, enciclopédias empilhadas, globo terrestre, porta-canetas... e a criança segurando a caneta, como se estivesse escrevendo o próprio futuro. Atrás, a bandeira do Brasil. Depois, era esperar ansiosamente pelo envelope com as fotos, para guardá-las em álbuns que seriam, mais tarde, mostrados com orgulho às visitas.

             Ser fotógrafo naquele tempo era mais que um trabalho: era missão. Era o ofício de capturar o instante para que ele não se perdesse. Era transformar o cotidiano em lembrança, o simples em eterno. Zezinho e tantos outros fotógrafos foram guardiões da memória de uma cidade inteira, preservando os sorrisos, as roupas de domingo, as primeiras poses, as travessuras disfarçadas, os olhares que já não estão mais entre nós.

            Hoje, ao folhear um álbum antigo ou encontrar uma fotografia dentro de um livro esquecido, sentimos o cheiro do passado. E entendemos que, graças aos fotógrafos, o tempo não levou tudo. A luz ficou. A memória ficou.

            E Santana do Ipanema, com seus encantos, continua vivendo em cada imagem que resistiu ao passar dos anos.

terça-feira, novembro 25, 2025

O TOBOGÃ DO MUNUMENTO

 

            Os anos de 1970 chegaram a Santana do Ipanema como um vento diferente, quente como sempre, mas trazendo novidades que mexiam com o coração da cidade. O Brasil tinha acabado de ganhar mais uma Copa do Mundo e, mesmo numa cidade pequena do sertão alagoano, o povo fazia festa como se estivesse no Maracanã. Fogos, gritos, bandeirinhas pelas ruas — Santana vivia um tempo de esperança.

            As crianças nascidas no início dos anos 60 já eram quase mocinhas, quase rapazes. Concluíam o primário, ajeitavam os cadernos de caligrafia e se preparavam para o ginásio. À noite, no Grupo Escolar Ormindo Barros, na Camoxinga, a professora Leda — firme, exigente e doce — reunia um grupo de alunos para reforço. Eram aulas silenciosas, de letras bem traçadas, contas alinhadas e o cheiro de giz no ar.

            Mas naquele ano algo extraordinário surgiu em Santana. Ninguém sabia ao certo de onde veio ou quem trouxe, mas uma novidade tomou conta das conversas, dos cochichos e dos olhos brilhando: o tobogã. Um escorregador gigante, mais alto do que qualquer coisa que aquelas crianças já tinham visto, parecia tocar o céu do Monumento.

             De longe já dava para sentir um friozinho danado na barriga. Para descer, cada um recebia uma estopa de juta — áspera nas mãos, mas macia o suficiente para voar na descida. Subia-se por uma escadaria comprida, degrau por degrau, ouvindo o coração bater no ouvido. Lá de cima, Santana parecia pequena, como um presépio iluminado pela lua. Depois era só sentar na estopa, segurar a respiração e… despencar. Queda livre. O vento cortando o rosto. O grito preso e solto. O chão chegando rápido. O riso escapando no final.

            Era festa, e que festa.

            Os pré-adolescentes do Ormindo Barros saíam das aulas às nove da noite e, sem que os pais soubessem, atravessavam a cidade em silêncio cúmplice até o Monumento. Ali, sob as estrelas, viviam a primeira noitada da vida. Desciam uma, duas, três vezes… até perder a conta. Pagavam um ou dois cruzeiros, riam como nunca, e deixavam o tempo escapar sem perceber.

Naquela noite, o mundo pareceu só deles.

Nem Santana existia mais.

Nem as preocupações dos adultos.

Nem a sombra do futuro.

            Existia apenas a velocidade do tobogã, a coragem recém-descoberta e a sensação de liberdade que, pela primeira vez, parecia caber no corpo. Mas, como toda aventura que nasce no improviso, a madrugada chegou. E com ela, a surpresa dos pais que esperavam os filhos voltarem da escola muito antes. A lição veio sem gritos — veio no susto, na preocupação dos adultos e no entendimento de que crescer também é aprender limites. Foi assim que aquela noite inesquecível se transformou em história, daquelas que se conta sorrindo e suspirando cinquenta anos depois.

Moral da História

            A liberdade tem sabor doce, mas precisa ser vivida com responsabilidade. A alegria dos filhos é grande, mas a preocupação dos pais é maior ainda. E, no fim, é no equilíbrio entre confiança e cuidado que se aprende a viver.

segunda-feira, novembro 24, 2025

QUANDO SANTANA DO IPANEMA VIROU CINEMA

 

            Ser criança em Santana do Ipanema nos anos de 1970 era viver dentro de um mundo pequeno que, misteriosamente, tinha a grandeza de um universo inteiro. No sertão alagoano, onde muitos imaginavam que “nada acontecia”, a vida pulsava com força própria — e para os olhos curiosos de uma criança, tudo era gigantesco. As ruas de barro, como a Antônio Tavares, eram estradas para aventuras intermináveis. As manhãs de sábado se abriam em cores, cheiros e vozes na feira livre, onde o mundo parecia chegar de mala e cuia, misturado aos cheiros de milho verde, couro e café fresco.

            O rio Ipanema, com suas pequenas ilhas temporárias, se transformava em estádio, parque e fortaleza. Estudar no Grupo Padre Francisco Correia, viver o brilho das festas juninas, os fogos que riscavam o céu, os bailes de carnaval nas tardes de domingo e terça de momo — tudo isso era o bastante para preencher uma infância inteira de memórias felizes.

            E havia o cinema. A sétima arte chegava a Santana com pompa e encanto. No Cine Alvorada, crianças e adultos viajavam para mundos distantes através de Teixeirinha e Mary Terezinha, Mazzaropi, Tarzan e Django. Mas Santana do Ipanema guardava uma surpresa maior, uma que fez o coração da cidade bater mais forte: ela própria se tornaria cenário de um filme.

            Quando Aécio Andrade escolheu Santana para gravar “A Volta pela Estrada da Violência”, o primeiro longa-metragem alagoano, a cidade viveu dias de pura magia. Homens, mulheres e, sobretudo, crianças acompanharam as filmagens como quem presencia um sonho se materializar. Muitos se tornaram figurantes, orgulhosos de emprestar seus rostos, suas roupas simples e sua espontaneidade ao cinema brasileiro.

            Uma das cenas mais marcantes tomou forma diante dos olhos da população: a chegada dos filhos da protagonista, mortos, carregados em caçuás sobre cavalos. A gravação começou na ponte nova e avançou pela Rua do Comércio, subindo a Barão do Rio Branco até chegar à imponente Igreja Matriz de Senhora Santana. Ali, diante da escadaria centenária, encerrou-se a sequência — sob os olhares atentos de uma multidão que, por alguns instantes, sentiu-se parte de Hollywood.

            Naqueles dias, Santana do Ipanema percebeu que o mundo era, sim, muito maior — mas que ela também podia ser grande. O sertão ganhava projeção nacional, e suas crianças ganhavam histórias para guardar para sempre em seus baús mais preciosos: as lembranças da vida.

            Porque ser criança em Santana nos anos 1970 era isso: descobrir que até nos cantos mais esquecidos do mapa, a grandeza também acontece — e, às vezes, vira cinema.

domingo, novembro 23, 2025

AS LEMBRANÇAS DE MARCELO

 

            Marcelo, filho de José de Deoclécio e Amélia e de Maria de José e Iluminata, cresceu como quem carrega dentro de si um mundo inteiro que ninguém vê. Era uma criança sonhadora, dessas que olham para o céu como se ele fosse um livro cheio de histórias, e para as ruas de terra como se fossem caminhos de aventura esperando apenas o primeiro passo.

            A casa simples, com o cheiro constante de café fresco e o barulho dos passos de Maria pela cozinha, era o primeiro território de sua imaginação. José, com seu jeito sério e ao mesmo tempo atento, sempre encontrava uma forma de chegar até o menino — fosse por um conselho curto, fosse por um olhar que dizia mais do que qualquer palavra.

            Marcelo carregava no bolso pedrinhas brilhantes, pedaços de madeira, cacos de vidro colorido que para ele eram tesouros, relíquias de um mundo que só sua imaginação alcançava. Às vezes, desaparecia pelos quintais vizinhos, seguindo borboletas, procurando ninhos, inventando máquinas impossíveis ou arriscando descobrir onde o vento nascia. Outras vezes ficava sentado no batente da porta, observando a rua como quem lê o tempo.

            Nos dias de festa, quando a música corria solta e a vizinhança parecia respirar mais leve, ele se escondia entre as pernas dos adultos para ver tudo sem ser notado. Gostava do som das conversas, dos risos, dos cheiros de bolo e das histórias contadas como se fossem verdade absoluta. Para Marcelo, cada palavra era uma semente — e no terreno fértil da sua imaginação, tudo brotava.

            Nem sempre entendia o mundo dos adultos, mas percebia a força que havia em seus pais. Maria com a firmeza silenciosa de quem guarda a casa, e José com aquele jeito meio ranzinza, meio carinhoso, que só quem viveu do lado dele sabe decifrar. Marcelo aprendia com os dois: com ela, a ternura; com ele, a resistência.

            O tempo passou, como sempre passa, mas algumas imagens ficaram bordadas na memória: o cheiro de chuva no início da tarde, a poeira subindo na estrada quando alguém passava a cavalo, o ar fresco das manhãs de domingo, e principalmente o sentimento de que o mundo era grande demais para caber num só lugar — sensação típica de meninos que sonham.

            Hoje, quando Marcelo olha para trás, percebe que sua infância foi feita de simplicidades que só ganham valor quando viram lembrança. E é ali, entre a casa antiga, o quintal iluminado pelo sol e a voz de seus pais chamando seu nome, que ele ainda encontra o menino que um dia foi — aquele que via magia onde ninguém mais via, e que aprendia a voar sem tirar os pés do chão.

sábado, novembro 22, 2025

O DIA EM QUE O MAR FINALMENTE CHEGOU

 

            Era quase 1970, e Santana do Ipanema ainda respirava o cheiro forte da terra quente, da poeira fina que colava nos pés e da calmaria típica do sertão. Naquele tempo, o mar era quase uma lenda. Falava-se dele como quem fala de um sonho distante — azul, grande, sem fim. Muitos santanenses nasciam, viviam e morriam sem ver aquele mundo de água que só existia na imaginação.

            Mas, de vez em quando, alguma família se aventurava pela BR-316, uma estrada de chão batido que serpenteava entre o mato ralo, buracos, pedras e coragem. Era preciso fé e disposição para encarar a viagem. Os ônibus até existiam, mas era mais comum ir de carona: político que ia resolver assunto na capital, proprietários de um carro que levavam passageiros para dividir o gasto do combustível, parentes que avisavam parentes… Era quase um ritual sertanejo de movimento.

            E assim aconteceu naquela semana.

            O político da cidade — homem muito elogiado nas feiras e nas calçadas — avisou que iria a Maceió com sua Rural Willys. Bastou a notícia se espalhar para que uma das famílias amigas se animasse. A esposa, que tinha parentes na capital, viu ali a chance de rever gente querida e, quem sabe, mostrar às crianças o tão falado mar. Aquele mar que só existia nos sonhos.

            Acertaram tudo: dia, hora e até o ponto exato da saída. As crianças, tão ansiosas, passaram três noites sem dormir, imaginando ondas enormes, peixes coloridos, areia fina e coisas que só conheciam pelos relatos dos que tinham ido e voltado encantados.

            Na véspera, a mãe improvisou uma mala com um lençol. Dentro dele, colocou as roupas e, como manda a tradição, separou presentes para os parentes: duas galinhas, um peru, queijo coalho, uma mão de milho, meio saco de feijão… Coisas que tinham mais valor sentimental que financeiro.

            Antes mesmo de o sol pintar o céu de vermelho por trás da serra, a família já estava sentada à porta do político. O pai, que não viajaria, ficou ali acompanhando um pedaço da madrugada, fumando os vinte cigarros da carteira de Continental como quem queima o tempo. Outros viajantes foram chegando, e logo a porta virou uma pequena feira, com conversas cruzadas, risadas altas e elogios ao político — que, vale dizer, nunca eram esquecidos na época da eleição.

            De repente, a Rural Willys apareceu, ronronando e coberta de poeira. Era como se a viagem começasse naquele exato instante.

            O motorista abriu a mala, que logo se transformou num depósito improvisado: sacos de mantimentos, animais vivos, trouxas, presente, ferramentas e, por cima, algumas crianças acomodadas como podiam, rindo do improviso. A parte interna do carro, que deveria levar cinco adultos, recebeu oito — três espremidos na frente, cinco no banco traseiro — além da meninada distribuída entre as pernas dos adultos e em cima dos sacos. Mais produtos foram amarrados no bagageiro sobre o carro.

            E assim seguiram.

            A BR-316 parecia um caminho sem fim. A Rural levantava uma nuvem de poeira que ia ficando para trás como o rabo luminoso de um cometa. Passaram pela pedra do Padre Cícero, cantaram modinhas, conversaram sobre política, falaram da vida, riram das lembranças.

            Uma das crianças, porém, estava enjoada. Encostada no vidro quente, olhava a estrada com uma tristeza muda — até que viu algo estranho: um pneu rolando pela estrada e ultrapassando o carro.

— Mainha, olha! O pneu quer chegar primeiro! — gritou eufórica.

            O motorista, assustado com o alvoroço, freou a Rural. Ao descer, constatou o impossível: o pneu que saíra correndo estrada afora era justamente o pneu traseiro da Rural. Tinha se soltado e, por milagre — ou por sorte de criança — não provocara acidente algum.

            Depois de muita poeira, suor, levantação de carro e aperto de porca, seguiram viagem. Horas mais tarde, cansados, sujos, amontoados, mas felizes, chegaram à capital.

E lá estava ele.

O mar.

Grande, azul, vivo, infinito — tão diferente de tudo o que conheciam.

            As crianças correram para a beira da água, encantadas, rindo como quem descobre um novo mundo. A mãe observava, emocionada, o sonho que enfim se realizava. A família inteira parecia iluminada por aquele encontro com o mar, como se o sertão tivesse aberto uma porta secreta para outra realidade.

            E é assim que muitos santanenses lembram daquele tempo: duro, sofrido, mas cheio de coragem, alegria e histórias que o tempo nunca apaga.

sexta-feira, novembro 21, 2025

A PLÍCIA MIRIM DE SANTANA DO IPANEMA - ANOS DE 1970

 

            A Santana do Ipanema dos anos de 1970 tinha uma cadência própria, uma respiração que misturava o barulho das carroças, o chiado das casas de telha quente e o movimento das ruas de chão batido com o correr das crianças que faziam da cidade o seu grande quintal. E foi nesse cenário, ainda ingênuo, ainda provinciano, que surgiu a Polícia Mirim, uma das iniciativas mais marcantes para quem viveu a infância naquela década.

            A Polícia Mirim não era polícia de verdade — mas na cabeça da meninada era quase como se fosse. Funcionava como um pequeno pelotão cívico, organizado por alguns professores do Grupo Escolar Padre Francisco Correia e apoiado pela prefeitura, que via naquilo uma forma de ensinar disciplina e civismo, coisas muito valorizadas na época.

O uniforme

            A memória mais viva de todos era o uniforme. Camisa branca muito bem passada — passada daquelas que a mãe dizia “cuidado pra não amassar” —, calça azul-marinho que quase sempre ficava curta depois de dois meses de uso, cinto preto e o boné, que era o orgulho do pelotão. O boné tinha uma pala firme, e muitos meninos tentavam deixá-la mais reta apertando entre os livros da escola.

            Os sapatos, esses variavam. Nem todo mundo tinha sapato “de desfile”. Uns iam com Kichute, outros com sapato velho engraxado que a mãe polia com jornal.

Os ensaios

            Os treinos aconteciam no pátio de cimento quente do Padre Francisco Correia, geralmente no fim da tarde. O sol ainda batia forte no fim dos anos 1970, e o calor subia do chão como um vapor que entortava o ar. O professor — às vezes um sargento reformado que ajudava no projeto — caminhava de um lado para outro ensinando a ordem unida:

— Sentido!

— Direita, volver!

— Marche!

            E a criançada ia, meio desengonçada, mas orgulhosa. Para muita gente, era a primeira vez que alguém pedia disciplina de verdade.

As apresentações

            O auge era sempre o desfile de 7 de setembro. A cidade se enfeitava, as famílias se arrumavam cedo, e a avenida principal ficava tomada. A Banda Marcial começava os primeiros toques e o pelotão da Polícia Mirim vinha logo atrás, em passo marcado, tentando manter o ritmo da caixa.

 

            As pessoas batiam palmas. Alguns pais se emocionavam. Um ou outro menino levantava o peito, tentando parecer mais alto. Era o dia em que a cidade via a si mesma organizada, bonita, com a criançada representando o futuro.

A disciplina e as pequenas missões

            De vez em quando, o grupo era chamado para ajudar em pequenos eventos: organizar fila na vacinação, auxiliar na entrega de merenda em alguma festividade da escola, ou até orientar os alunos mais novos na entrada da aula.

            Nada de autoridade de verdade. Mas para quem tinha dez ou onze anos, aquilo dava um senso de importância que até hoje fica guardado.

A marca que ficou

            A Polícia Mirim durou alguns anos e, como muitas coisas daquela época, acabou se perdendo no tempo, engolida pelas mudanças políticas, pela modernização e pelo novo ritmo da cidade. Mas quem viveu lembra. Lembra do boné, do calor do pátio, da voz do professor ecoando, do orgulho besta — e bonito — de marchar na avenida.

            Era uma Santana simples, mas cheia de invenções sociais que acabavam virando lembrança afetiva. A Polícia Mirim foi uma delas: um pequeno capítulo de civismo infantil num tempo em que a cidade parecia grande porque a gente era pequeno.

quinta-feira, novembro 20, 2025

O DIA QUE A CIDADE CHEIRAVA A INFÂNCIA

 

            Em Santana do Ipanema, a infância não era apenas uma fase — era um território livre, amplo como o céu do sertão. Nas ruas quase sem carros, as crianças fabricavam mundos inteiros com duas pedras fazendo o papel de trave, uma bola de plástico ou mesmo uma improvisada, uma bola de couro comprada na loja da família Alcantara. Entre uma partida e outra, unhas arrancadas, joelhos ralados e braços engessados não eram acidentes: eram medalhas de honra da vida de menino e menina.

            O rio Ipanema, serpenteando a cidade, era mais que um rio: era extensão da casa. Ali se banhavam os pequenos, enquanto as lavadeiras batiam roupas nas pedras e estendiam lençóis e camisas sobre o capim para curar ao sol forte. O barulho das batidas na pedra se misturava ao riso das crianças, que aprendiam a nadar antes mesmo de aprender a escrever seus próprios nomes.

            E entre subir e descer as ladeiras, a escola se encaixava como complemento do mundo: era ali que se descobria que existia vida além das fronteiras secas do sertão. A igreja, por sua vez, não era apenas templo — era o coração espiritual de Santana. Católicos, batistas, assembleianos, espíritas… cada grupo vivia sua fé, mas todos sabiam que, no fundo, a cidade inteira respirava religiosidade. Era parte da identidade, assim como o pó das estradas e o calor do meio-dia.

            Mas havia dias em que o coração das crianças batia diferente.

            No São João, por exemplo, quando o cheiro de milho assado e licor invadia as ruas, e as fogueiras iluminavam a noite como pequenas estrelas terrestres. Na festa da Padroeira, quando o parque de diversões chegava e fazia a cidade parecer maior do que realmente era. No Natal, quando a Missa do Galo dava um ar de mistério à madrugada, e cada criança ia dormir sabendo que, ao acordar, um embrulho deixado por Papai Noel estaria aos pés da rede ou da cama. Sapatos novos, roupas cheirando a pano recém-costurado… tudo era festa, tudo era encanto.

            Mas existia um dia especial — um dia que pertencia, mais do que qualquer outro, ao universo infantil: 27 de setembro, dia de São Cosme e São Damião.

            Nesta data, Santana parecia pulsar em ritmo diferente.

            Dias antes, corria o boato pelas ruas de chão batido: “Já tão entregando os cartões na casa do Major Darcy!” O coração da meninada disparava. Os cartões — carimbados, rubricados — eram garantia de uma sacolinha com doces e brinquedinhos. Algumas crianças guardavam o cartão como um tesouro. Outras, que não conseguiam, iam na esperança, porque, no fundo, todos sabiam que sempre tinha um pacote a mais.

            A casa da família de Major Darcy, no centro da cidade, se transformava em ponto de peregrinação infantil. Erguida em local de destaque, ela se enfeitava não com bandeirolas, mas com vozes, risadas e pés descalços batendo no chão apressados. Naquele dia, a fila era tão grande que parecia abraçar o quarteirão.

 

E os olhos das crianças brilhavam — não apenas pelo doce, mas pela sensação de pertencimento, de cuidado, de graça recebida.

            A família fazia aquilo por promessa, por fé, por devoção e, sobretudo, por caridade. Caridade que não humilhava, mas alegrava. Caridade que aproximava. Caridade que, por algumas horas, unia toda a cidade em torno de um gesto simples e profundo: fazer uma criança sorrir.

            Quando finalmente chegava a vez de cada pequeno, o pacote caía nas mãos como um presente do céu. Um punhado de balas, um brinquedinho barato, a lembrança de algum santo. Mas para o coração infantil, aquilo era imenso. Era bênção. Era festa. Era prova de que o mundo podia ser generoso.

            À tarde, as ruas se enchiam de crianças mastigando balas coloridas, correndo com seus brinquedos, mostrando com orgulho o que haviam recebido. E mesmo aquelas que tinham ido sem cartão voltavam para casa com as mãos cheias, porque a cidade sempre dava um jeito de abraçar todos no final.

            O sol se punha atrás das serras, tingindo o céu de laranja. E naquele instante, a fé, a infância e a caridade se entrelaçavam como se fossem parte de um mesmo tecido. Um tecido que, mesmo com o passar dos anos, nunca se desfaz.

            Em Santana do Ipanema, onde cada pedra da rua guarda uma história, o dia de Cosme e Damião era um lembrete eterno: na simplicidade dos gestos se escondem os milagres mais bonitos.

quarta-feira, novembro 19, 2025

SANTANA DO IPANEMA: FRAGMENTOS DE UMA CIDADE EM MOVIMENTO

 

            Há cidades que se contam por ruas; Santana do Ipanema, nas décadas de 1960 e 1970, se contava por territórios de alma. Não era apenas São Pedro, Monumento ou o Centro. Eram camadas vivas de um corpo maior: São Vicente, Camoxinga, a região da Barragem, o Rabo da Gata, o Aterro — cada pedaço com sua gente, seu modo de viver, suas próprias leis silenciosas.

São Vicente: O Silêncio que Ampara

            No alto do bairro de São Vicente, onde o vento parecia soprar mais devagar, estava a Casa de Repouso São Vicente de Paula. As janelas sempre entreabertas deixavam escapar conversas murmuradas, risos esquecidos, histórias que se perdiam no tempo. Ali viviam idosos sem família, e outros que lutavam contra os labirintos da mente. Era um lugar de quietude e de afeto tardio, visitado por poucos, mas lembrado por todos.

O Aterro e Suas Travessias

            Para muitos, o Aterro era um lugar a evitar; para outros, era caminho obrigatório. Ali sobreviviam mulheres que trocavam carícias por sustento, num pedaço da cidade onde julgamentos e silêncios caminhavam lado a lado. E, apesar das proibições veladas, dezenas de crianças passavam por ali todos os dias a caminho da Escola Estadual Deraldo Campos. Quem viveu essa época conhece bem aquele trecho onde inocência e dureza dividiam a mesma rua.

Camoxinga: O Pulso da Cidade

            Da estrada do Aterro, chegava-se ao Maracanã, ponto de encontro do Camoxinga. As calçadas eram altas, devido aos terrenos serem em declive e, ao mesmo tempo, dava perspectiva à vida que corria. O Camoxinga era um bairro completo: tinha o hospital, tinha a igreja de São Cristóvão e tinha histórias que só quem viveu consegue contar.

            A festa de São Cristóvão marcava o calendário santanense. Era mais do que religião: era espetáculo, era comunidade. A procissão de carros formava uma fila interminável, serpentando pelas ruas. À frente, num caminhão decorado, ia a imagem do santo, e o motorista fazia soar a buzina como um toque de bênção. Cada buzina que ecoava atrás parecia uma prece, um agradecimento, um pedido. O som se misturava aos hinos religiosos nos alto-falantes, criando uma trilha sonora que se escutava com o corpo inteiro.

O Estádio e os Domingos de Clássico

            Subindo para o Alto do Cemitério, chegava-se ao estádio. Era ali que a cidade parava para ver Ipiranga e Ipanema disputarem a glória. Nos domingos de clássico, não havia quem não encontrasse um jeito de dar uma passada pelo campo, nem que fosse para ouvir o burburinho da torcida, sentir o cheiro da poeira levantada pelos pés ansiosos dos jogadores, ou discutir, como sempre, quem tinha o melhor ataque.

Barragem e o Rumo das Águas

            Do Maracanã, descendo pela estrada de asfalto novo, chegava-se à Barragem. Uma ponte estreita cortava o Rio Ipanema, cercada por muros erguidos para segurar as águas nas épocas de enchente. Para as crianças, era aventura. Para os adultos, era vigilância. Para todos, era um divisor de histórias — e de destinos.

No Rastro do Rabo da Gata

            Ao atravessar a ponte nova, no final da Barão do Rio Branco, despontava o rabo da gata — uma região de estrada longa, ladeada de mato, pequenas casas e mistério. Esse caminho seguia rumo a Olhos D’Água e Pão de Açúcar, cidade moldada às margens do Velho Chico. Era uma estrada que carregava poeira, sonhos, promessas e despedidas.

            No alto da serra, dominando a paisagem, estava a famosa micro-ondas, eternizada por Remi Bastos. Para muitos, era só uma torre. Para os santanenses, era um marco: sinal de modernidade chegando, cortando a solidão da caatinga com seus sinais invisíveis.

Uma Cidade de Muitas Cidades

            Santana daquelas décadas era feita de fronteiras e encontros. As divisões naturais da cidade criavam pequenas culturas particulares, mas todas se entrelaçavam na vida diária. O rio, as pontes, os bairros, os times de futebol, as festas, a poeira das estradas — tudo compunha um mosaico vivo.

            Hoje, quem viveu aquele tempo guarda essas memórias como quem guarda um álbum raro. Não pelas fotografias, mas pelos sons, pelos cheiros, pelos medos e alegrias que fizeram parte de uma Santana do Ipanema que já não existe mais — a não ser dentro de quem a viveu.

terça-feira, novembro 18, 2025

OS MENINOS DA RUA DAS LADEIRAS

 

            Naquele pedaço de Santana do Ipanema, onde as casas pareciam conversar umas com as outras pelas janelas abertas, nascer no início dos anos de 1960 era nascer livre. Livre como o vento quente que descia das serras, como o pó fino que se levantava das ladeiras de pedra, como os riachos que corriam quando o inverno dava o ar da graça.

            A rua era a primeira escola — e o primeiro lar fora de casa.

            As portas ficavam escancaradas desde cedo. As mães, vestidas com seus aventais floridos, cuidavam da casa, da comida, dos filhos, das conversas com vizinhas. Os pais saíam para seus ofícios, alguns com marmitas embrulhadas em panos, outros montados em bicicletas, outros ainda indo a pé medir terras, trabalhar no comércio ou ajudar na roça de parentes.

            Para as crianças, a única obrigação era brincar.

            Assim que o sol começava a esquentar o terreiro, os pés pequenos já estavam correndo pelas ladeiras nuas, saltando as pedras, inventando caminhos, procurando uns aos outros. Em minutos, uma turma inteira se formava, como se tivessem sido convocados por algum sino invisível.

            Brincar era um trabalho sério.

            Havia os grupos que jogavam bola com bola de meia; os que preferiam as “ximbras” feitas de vidro transparente; as meninas rodavam cordas e riam alto; e os mais aventureiros corriam para os matos e porões das casas antigas, onde a imaginação fazia de qualquer canto um castelo, um esconderijo, uma fortaleza.

            Mas o grande palco das aventuras era o Panema.

            Quando o rio secava e deixava apenas poças grandes, a criançada se jogava na água rasa, deitada sobre pedras lisas, aprendendo a nadar com os braços e pernas agitados como se imitassem um cachorro. Depois, ousavam mergulhar sem a pedra, e aos poucos iam dominando a arte dos mergulhos, das braçadas largas.

            O batismo final era no Poço dos Homens.

            Entre duas pedras altas, separadas por uns três metros, os valentes saltavam entre uma e outra, suando frio, tremendo as pernas, mas vencendo o medo com gargalhadas. Quem conseguia tocar o fundo do poço com o pé virava herói do dia.

            Voltavam para casa sujos, arranhados, famintos — e felizes.

            Na mesa, sempre havia fartura: cuscuz fumegante, aipim macio, arroz soltinho, feijão engrossado, frango de quintal, charque acebolada, queijo de coalho, leite com nata grossa. Nos dias festivos, buchada de bode; na Páscoa, bacalhau; no Natal, peru.

            Às vezes, depois dos machucados, vinham os cuidados: o iodo que ardia feito fogo, o mertiolate que deixava a pele cor de ferrugem, e antes do almoço, a famosa Emulsão de Scott, o “fortificante” que fazia a cara das crianças virar careta antes mesmo de chegar à boca. Mas o medo da palmatória pendurada atrás da porta garantia que o frasco voltasse vazio para a prateleira.

            A fé também fazia parte da rotina. A catequista Letícia reunia dezenas de crianças para ensinar paciência, respeito e os preparativos para a primeira comunhão. Depois vinha a confirmação — e todo mundo ia arrumado como se fosse um desfile de reis.

            Quando a tarde avançava e o calor dava trégua, a meninada sumia rumo ao riacho do Bode, carregando pão com mortadela e cajuína comprados na bodega de seu Carrito. Lá, pescavam, tomavam banho e contavam histórias de assombração, enquanto o sol queimava o chão e tingia tudo de dourado.

            A televisão era raridade. Uma ou outra casa tinha uma TV, a emissora Tupi que funcionava, não com muita boa vontade: chiado, chuvisco, alguém no telhado rodando a antena e os vizinhos todos sentados no chão, assistindo ao mesmo tempo.

            A cidade era pequena, mas o coração era grande. Todos se conheciam. Todos cuidavam de todos. Criança chamava adulto de tio ou tia, e o adulto chamava criança pelo nome completo, para reforçar o respeito.

            E assim, entre ladeiras de pedras, mato verde, banhos de rio, brincadeiras infinitas e mesas fartas, se formou uma geração inteira — alegre, unida, valente — que cresceu acreditando que o mundo começava e terminava ali, naquele canto quente e querido do sertão.

            Uma geração que leva Santana do Ipanema no peito até hoje, como quem carrega o perfume da infância no bolso da memória.

JULHO EM SANTANA: QUANDO A JUVENTUDE VIRAVA FESTA

             Santana do Ipanema sempre foi mais que um ponto no mapa. Foi — e ainda é — um lugar de pertencimento, um chão que cria raízes i...