Ser criança em Santana do Ipanema nos anos de 1970 era viver entre o barro quente das ruas, os becos que guardavam segredos e o rio que ensinava lições de aventura. Mas havia um dia que não se parecia com nenhum outro. Um dia em que o mundo inteiro parecia caber dentro da pequena cidade sertaneja: 21 de junho de 1970, final da Copa do Mundo.
Junho sempre fora mês de fogueiras, milho assado e
bandeirolas balançando no vento frio que vinha da Serra. As crianças esperavam
São João como quem espera uma festa de aniversário. Mas naquele ano, o clima
parecia diferente. Era como se o povo estivesse aguardando dois santos: São
João… e o futebol brasileiro.
O Brasil entraria em campo para tentar o tricampeonato. E
o técnico era um alagoano — Zagalo, orgulho que abraçava o estado inteiro.
A Cidade que parou
Quando o relógio marcou três da tarde em Santana,
meio-dia no México, a cidade silenciou. As crianças, que normalmente corriam
descalças pelas ruas, naquele dia ficaram dentro de casa, grudadas nos rádios
que chiavam. O silêncio era tão forte que parecia que até o vento tinha parado
para ouvir a narração.
E então… GOL!
As portas das casas se abriram de repente. Era grito, era
riso, era o Brasil inteiro dentro de cada santanense. Houve também o instante
do suspiro atravessado, o grunhido de decepção quando o México marcou. Mas
ninguém desistiu: o povo brasileiro nunca desiste.
Os Homens que Foram Ver o
Mundo Pela TV
Televisão em Santana praticamente não existia. Era luxo,
era coisa rara, bicho que ninguém quase via. Por isso, alguns comerciantes e
políticos se reuniram e decidiram pegar a estrada de poeira até Dois Riachos,
rumo ao sítio localizado na região conhecida como Pai Mané. Lá, numa grande residência da senhora Maria
da Glória, filha de dona Sinhá, santanense, havia o milagre moderno: uma
televisão.
Os carros partiram como quem vai a uma romaria. Ao
chegarem, foram recebidos pela dona da casa, e os santanenses se espremiam
diante da tela pequena, como se o mundo fosse caber inteiro ali. E coube. Ali
eles viram Pelé voar, Gérson distribuir o jogo, Jairzinho correr como um raio e
Carlos Alberto Torres marcar um dos gols mais bonitos da história.
A Volta Triunfal
Quando retornaram já era noite e Santana parecia outra cidade.
Os foguetes brilhavam fortes, a praça estava tomada, e o ar cheirava a alegria,
suor, milho e vitória. Ali, naquele pedaço de chão, o povo dançava, se
abraçava, sorria como se cada um tivesse feito parte do time. Foi a noite em
que Santana do Ipanema, assim como o Brasil inteiro, comemorou não apenas um
título. Comemorou ser brasileiro.
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