Um pedaço de madeira, um pequeno serrote, um martelo, alguns pregos e uma ideia luminosa na cabeça. Era tudo o que uma criança precisava para transformar a tarde simples em aventura. Naquele tempo, na Santana do Ipanema das décadas de 1960 e 1970, brincar era um ato de criação — e de mundo.
O jeep começava ali, na imaginação. Para os pneus,
ninguém hesitava: um chinelo Havaianas encontrado no beco de dona Otília
resolvia. O beco grande e meio esquecido, cheio de mato, era um tesouro. Muitos
jogavam ali o que não queriam mais, e as crianças sabiam enxergar valor no que
os adultos descartavam. Bastava caminhar por uma das trilhas que levavam até a
rua de baixo, e dali para o rio Ipanema, que novos materiais surgiam como
mágica no caminho. As molas? Uma lata de óleo de cozinha servia. Se não
houvesse lata, tiras de metal achadas no chão da serralheria funcionavam. Era
tudo matéria-prima para sonhos.
E a serralheria de seu Antônio Dantas era o coração dessa
fábrica imaginária. Pequena, barulhenta, encharcada de cheiro de madeira e cavacos,
ficava bem na rua nova, quase fechando o beco de seu Felisdoro. Aquele beco,
famoso pelas casas de aluguel de dona Bila e de seu Felisdoro, acolhia famílias
recém-chegadas à cidade, gente em busca de novas possibilidades. Por isso,
talvez, o lugar sempre parecia cheio de vida — de vozes, risos e sonhos.
Seu Antônio Dantas, com seu avental de couro e gestos
tranquilos, era mais que serralheiro: era guardião da inventividade da
criançada. Deixava que entrassem, que pegassem restos de madeira, pedaços de
compensado, sobras de metal. E mais ainda: emprestava ferramentas pequenas,
explicava como serrar, como lixar, como pregar sem machucar o dedo. Tinha
paciência. Tinha afeto.
Era ali, naquele espaço simples, que nascia a linha de
montagem dos brinquedos da rua do Sebo.
As crianças saíam pela porta da serralheria com seus
jeeps, caminhões e carros improvisados, cada um carregando um pedaço do orgulho
de quem fez com as próprias mãos. Depois, vinham as expedições: subiam e
desciam as ruas da cidade, puxando seus carros por um barbante, em filas
intermináveis. Passavam por paus, pedras, paralelepípedos, trechos de barro
seco. E de suas bocas vinham os sons que moviam o mundo:
— Brummm, brummm! Bibi!
Bibi!
Era como se os carros ganhassem alma, como se a vida
pulsasse cortando o vento.
A comunidade olhava e sorria. Cada adulto conhecia
aquelas crianças, sabia de quem eram filhas, onde moravam, como cresciam. Havia
cuidado, havia presença. As crianças tinham liberdade — e tinham quem olhasse
por elas. E isso fazia toda diferença.
Cada dia era uma invenção nova. Um brinquedo novo. Uma
brincadeira que nascia sem precisar de pilha, tela ou tomada. Bastava o que
havia ao redor e um grupo de amigos. O tempo corria devagar, como as águas do
Ipanema nas épocas de estiagem, e cada tarde parecia comprida, cheia, eterna.
Assim era a infância em Santana do Ipanema: criativa,
compartilhada, acompanhada. Uma infância que ensinava que o brincar não era
simples passatempo, mas um jeito bonito de aprender a viver, a imaginar, a
cooperar — e a sonhar junto.
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