sexta-feira, dezembro 05, 2025

O EDUCANDÁRIO DAS INFÂNCIAS FELIZES

 

            Diziam que, em Santana do Ipanema dos anos de 1960, todas as crianças tinham vindo ao mundo no mesmo ano. Eram tantas, espalhadas pelas ruas de pedra e barro, que pareciam formiguinhas coloridas correndo, rindo, inventando mundos inteiros com um pedaço de madeira, uma pedrinha lisa ou um galho de árvore. A cidade vibrava com o barulho dos passos miúdos.

            No educandário da professora Penina, o coração da infância batia mais forte. A escola tinha dois turnos e duas mestras: dona Penina, firme como um tronco de imburana, e a professora Maria, doce como o mel de engenho. Nas salas multisseriadas, onde pequenos e um pouco maiores aprendiam lado a lado, tudo virava aprendizado. De manhã bem cedo, antes que o sol abrisse as janelas do céu, as crianças já estavam sentadas, atentos aos patinhos amarelos que dona Penina colava no quadro flanelado. Cada patinho, com seu biquinho sorrindo, ensinava números, letras e até um pouco de ciência:

— “É um patinho amarelinho… são dois patinhos amarelinhos… são três patinhos amarelinhos… todos pequenininhos!”

            Era cantar para aprender e aprender cantando, jeito de criança não esquecer jamais. Quando a lição era de geografia, as professoras explicavam com música, mãos dançando no ar:

— “Chove chuvinha, chove chuvinha de janeiro… corre, corre aguaceiro!”

            As mãos viravam nuvens, os dedos viravam pingos, e os olhinhos brilhavam como quem vê o mundo nascer de novo.

            Mas o melhor dia era quando a professora Penina anunciava:

— Amanhã tem passeio no campo!

            A partir daí, ninguém dormia direito. Os corações ficavam batendo como zabumba de São João. No dia seguinte, lancheiras coloridas balançavam no braço das crianças, carregando suco, bolo e algum segredo doce que a mãe tinha colocado às escondidas.

            Chegando na fazenda, tudo era festa. Havia porcos resmungões, galinhas esbaforidas, jumentos pacientes, perus orgulhosos, guinés apressados, vacas dóceis e bezerros com cheirinho de leite fresco. Cada animal era um universo novo. Na hora do lanche, as professoras estendiam uma toalha grande sob a sombra generosa de uma árvore. As crianças se sentavam ao redor, formando um círculo de pureza tão bonito que até o vento parava para ver. Antes de comerem, faziam uma oração de agradecimento — pelo dia, pelos amigos, pelos alimentos, pela alegria tão grande de ser criança.

            Depois, vinham as brincadeiras: correr, subir em árvore, inventar histórias, colecionar folhas, descobrir o mundo como quem descobre um tesouro. E, no fim da tarde, já com o sol preparando a cama por trás das serras, era hora de voltar. As crianças subiam animadas na carroceria da camionete de um dos pais. Iam empilhadas de felicidade e cansaço, cabelos desarrumados pelo vento, corações cheios de coisas que não se explicam, só se sentem.

            A viagem de volta parecia sempre mais curta. Talvez porque todos voltavam adormecendo, embalados pela certeza de que um dia bonito tinha sido vivido.

            Naquela Santana do Ipanema, aprender era um ato de amor. E ser criança… ah, ser criança ali era ser dono da rua, do riso, do instante e da esperança. Era viver num tempo em que as professoras eram como mães e a escola era como casa.

            E quem viveu aquilo guarda até hoje, no fundo da memória, o cheiro de mato, o brilho dos patinhos amarelos e a voz suave de quem dedicou a vida a ensinar:

— “Chove chuvinha…”

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