Há histórias que não cabem apenas nas linhas do tempo. Elas se espalham pela cidade, pousam nos telhados antigos, atravessam gerações e, quando contadas, voltam a perfumar o ar com a lembrança de um tempo em que estudar era quase um ato de coragem. Assim era a presença do Grupo Escolar Padre Francisco Correia na vida dos santanenses: uma porta estreita, mas luminosa, que abria caminhos para além das ladeiras de Santana do Ipanema.
Fundado em 1938, o Grupo foi durante décadas o palco onde
tantas infâncias descobriram que o mundo podia caber dentro de um caderno de
capa azul. Ali, entre o cheiro do giz e o murmúrio das leituras de farfalho, as
crianças enfrentavam o desafio que marcava a passagem da meninice para a
adolescência: a temida prova de admissão. O livro Programa de Admissão era
quase um companheiro indesejado — pesado, exigente, capaz de tirar o sono de
pré-adolescentes que carregavam nas costas o sonho das famílias: “Passar no
exame”. Era como se cada página folheada fosse um tijolo colocado no futuro que
ainda estavam aprendendo a imaginar.
E naquele espaço em forma de círculo, dividido por arcos,
onde o pátio abraçava as salas, reinava a figura firme e afetuosa de Dona
Marinita Peixoto Noya. Diretora, educadora, guia — mulher cuja autoridade não
se impunha pelo medo, mas pelo respeito que florescia espontâneo em todos que
ali estudavam. Entre a sala da direção, a secretaria simples, as poucas salas
que recebiam alunos em dois turnos, e a rotina da merenda servida com cuidado,
Dona Marinita era a alma que fazia a engrenagem funcionar.
Até que um dia, a doença que rondava sua saúde venceu a
batalha. E Santana do Ipanema viu algo que até hoje ecoa como uma cena de
profunda humanidade e respeito.
A cidade parou. O silêncio se instalou como um manto.
Das portas do Grupo saiu a convocação: todos os alunos
deveriam acompanhar o cortejo, uniformizados, levando flores.
E assim aconteceu.
Da Rua de São Pedro ao alto do Cemitério Santa Sofia, uma
fila imensa de crianças percorreu ruas que pareciam mais longas do que nunca.
Passaram pela Antônio Tavares, cruzaram o centro, desceram pela Barão do Rio
Branco, seguiram pela ponte do padre e começaram a subida pela Camuxinga.
Marchavam como num desfile de sete de setembro, mas não havia banda. Como numa
procissão, mas não havia andor. O que havia era uma cidade inteira
reconhecendo, através daqueles pequenos passos, o valor de quem dedicou a vida
a ensinar.
As flores que faltaram às roseiras naquele dia sobraram
no coração da memória. Cada pétala entregue parecia dizer: “Obrigado, Dona
Marinita. O que somos, devemos também a você.” Aquele cortejo não foi apenas
uma despedida. Foi um lembrete: a educação é o que sustenta uma comunidade, o
que levanta crianças e amadurece cidades. É a força silenciosa que transforma
meninos e meninas em cidadãos capazes de sonhar e de agir. É o legado que não
se sepulta.
E assim, mesmo décadas depois, quando alguém passa pelo
antigo bairro do Monumento, ainda é possível sentir — como brisa antiga — a
certeza de que um país só avança quando respeita seus mestres, suas escolas,
suas histórias. O Grupo Escolar Padre Francisco Correia foi mais do que um
prédio.
Foi um coração pulsando em nome do futuro.
E esse pulso continua vivo em cada lembrança que ainda
floresce, como as rosas daquele dia, na alma de Santana do Ipanema.
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