Naquele pedaço de Santana do Ipanema, onde as casas pareciam conversar umas com as outras pelas janelas abertas, nascer no início dos anos de 1960 era nascer livre. Livre como o vento quente que descia das serras, como o pó fino que se levantava das ladeiras de pedra, como os riachos que corriam quando o inverno dava o ar da graça.
A rua era a primeira escola — e o primeiro lar fora de
casa.
As portas ficavam escancaradas desde cedo. As mães,
vestidas com seus aventais floridos, cuidavam da casa, da comida, dos filhos,
das conversas com vizinhas. Os pais saíam para seus ofícios, alguns com
marmitas embrulhadas em panos, outros montados em bicicletas, outros ainda indo
a pé medir terras, trabalhar no comércio ou ajudar na roça de parentes.
Para as crianças, a única obrigação era brincar.
Assim que o sol começava a esquentar o terreiro, os pés
pequenos já estavam correndo pelas ladeiras nuas, saltando as pedras,
inventando caminhos, procurando uns aos outros. Em minutos, uma turma inteira
se formava, como se tivessem sido convocados por algum sino invisível.
Brincar era um trabalho sério.
Havia os grupos que jogavam bola com bola de meia; os que
preferiam as “ximbras” feitas de vidro transparente; as meninas rodavam cordas
e riam alto; e os mais aventureiros corriam para os matos e porões das casas
antigas, onde a imaginação fazia de qualquer canto um castelo, um esconderijo,
uma fortaleza.
Mas o grande palco das aventuras era o Panema.
Quando o rio secava e deixava apenas poças grandes, a
criançada se jogava na água rasa, deitada sobre pedras lisas, aprendendo a
nadar com os braços e pernas agitados como se imitassem um cachorro. Depois,
ousavam mergulhar sem a pedra, e aos poucos iam dominando a arte dos mergulhos,
das braçadas largas.
O batismo final era no Poço dos Homens.
Entre duas pedras altas, separadas por uns três metros,
os valentes saltavam entre uma e outra, suando frio, tremendo as pernas, mas
vencendo o medo com gargalhadas. Quem conseguia tocar o fundo do poço com o pé
virava herói do dia.
Voltavam para casa sujos, arranhados, famintos — e
felizes.
Na mesa, sempre havia fartura: cuscuz fumegante, aipim
macio, arroz soltinho, feijão engrossado, frango de quintal, charque acebolada,
queijo de coalho, leite com nata grossa. Nos dias festivos, buchada de bode; na
Páscoa, bacalhau; no Natal, peru.
Às vezes, depois dos machucados, vinham os cuidados: o
iodo que ardia feito fogo, o mertiolate que deixava a pele cor de ferrugem, e
antes do almoço, a famosa Emulsão de Scott, o “fortificante” que fazia a cara
das crianças virar careta antes mesmo de chegar à boca. Mas o medo da
palmatória pendurada atrás da porta garantia que o frasco voltasse vazio para a
prateleira.
A fé também fazia parte da rotina. A catequista Letícia
reunia dezenas de crianças para ensinar paciência, respeito e os preparativos
para a primeira comunhão. Depois vinha a confirmação — e todo mundo ia arrumado
como se fosse um desfile de reis.
Quando a tarde avançava e o calor dava trégua, a meninada
sumia rumo ao riacho do Bode, carregando pão com mortadela e cajuína comprados
na bodega de seu Carrito. Lá, pescavam, tomavam banho e contavam histórias de
assombração, enquanto o sol queimava o chão e tingia tudo de dourado.
A televisão era raridade. Uma ou outra casa tinha uma TV,
a emissora Tupi que funcionava, não com muita boa vontade: chiado, chuvisco,
alguém no telhado rodando a antena e os vizinhos todos sentados no chão,
assistindo ao mesmo tempo.
A cidade era pequena, mas o coração era grande. Todos se
conheciam. Todos cuidavam de todos. Criança chamava adulto de tio ou tia, e o
adulto chamava criança pelo nome completo, para reforçar o respeito.
E assim, entre ladeiras de pedras, mato verde, banhos de
rio, brincadeiras infinitas e mesas fartas, se formou uma geração inteira —
alegre, unida, valente — que cresceu acreditando que o mundo começava e
terminava ali, naquele canto quente e querido do sertão.
Uma geração que leva Santana do Ipanema no peito até
hoje, como quem carrega o perfume da infância no bolso da memória.
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